Silas é o diplomata: o que serviu ao poder e aprendeu a ir a pé. No café, foi o último a abrir a mochila — e o que saiu dela doeu: os dados das urnas mostravam que só a Classe E, a mais pobre, votou diferente de todas as outras.
O lobo e a ovelha, a ovelha e o lobo: quem domesticou quem?
Este é o ensaio mais mordaz escrito por Silas. Ele o escreve com a precisão de quem conhece o poder por dentro: a teologia do lobo, a meritocracia como doutrina, o púlpito citando Nietzsche às avessas, o deus das metas e das planilhas.
Não é ensaio contra a fé — é contra a fé que converte o predador em doutrina e a presa em culpada.
Este terceiro[1][2] texto de Silas não chegou em envelope pardo. Chegou dobrado dentro de um mapa de estrada — daqueles que se compram em posto de gasolina, se abrem uma vez e se abandonam no banco do carro.
As dobras guardavam poeira e um cheiro de café passado, como se o papel tivesse dormido junto à mochila em muitas madrugadas.
Silas[3] é o nome que este peregrino escolheu para si — do latim Silvanus, "do bosque": o que pertence à floresta, o que habita onde não há muros. Um homem de fronteira que passou a vida, paradoxalmente, dentro de salas com teto: diplomata de carreira, redator de tréguas, sentador de mesas.
Nos ensaios anteriores, ele caiu do cavalo numa praça — quando descobriu que os verdadeiros inimigos já estavam abraçados[1] — e aprendeu a desmontar dentro de si o altar que servira sem saber[2]: o altar do Deus feudal, transacional, que tudo podia e tudo cobrava.
O que restou foi um altar vazio — não ausência: espaço.
Silas, agora, é o que serviu ao poder e aprendeu a ir a pé. E sua lente segue sendo a do ofício: ler a mesa de negociação no púlpito e nos bancos bem assentados.
Onde outros veem culto, ele vê cláusula. Onde outros veem bênção, ele vê contrapartida. Onde outros veem ovelha, ele pergunta: quem redigiu a fábula?
Deixo ao leitor o incômodo que a leitura me deixou: se a sua fé fosse uma minuta de acordo, quem a assinou em seu nome?
A estrada devolveu Silas a uma praça — não a mesma; todas as praças são a mesma em ano eleitoral. O primeiro turno já foi; o segundo ainda não veio, e o país inteiro virou sala de espera.
Nas esquinas, as faixas trocaram de candidato, não de versículo. O adesivo do poste — "Deus, Pátria e Família" — ganhou companhia: agora há adesivos que prometem prosperidade com data marcada. E o pior: as propostas dos dois finalistas já se parecem — cláusulas trocadas, o mesmo tratado redigido por duas mãos — e o eleitor já não distingue as mãos.
Na esquina oposta, um templo novo estica uma tela de LED sobre a calçada: palavras em movimento contínuo — "propósito", "vitória", "conquista", "decretar" —, um culto que anuncia a si mesmo como infomercial do céu. Silas para diante da tela como quem lê o prospecto de um fundo de investimento.
E há um dado pairando sobre a cidade, um dado que os jornais comentaram por um dia e enterraram no segundo: nas urnas de outubro, das classes A a D venceu o herdeiro do sobrenome; só a classe E — a que limpa, entrega, atravessa a cidade em ônibus lotados — votou diferente de todos.
A classe que nunca senta à mesa votou como quem pede o pão de volta, na esperança de não voltar à fome de onde já saiu duas vezes.
* * *
Foi no café que o dado me atravessou[4]. Na tela pequena, o pastor falava de urnas e de antipetismo, de jubileu e de lobo — e, no meio, soltou a estatística que ninguém discute: a única classe em que Lula venceu foi a classe E. Nas outras, venceu o mérito.
Eu sou um homem do mérito. Concurso, título, carreira — passei a vida sendo promovido por desempenho e acreditando que a mesa em que me sentava tinha sido posta pelo meu esforço.
O dado da classe E me desmonta porque desmascara a minha própria contabilidade: se a posição de cada um na mesa fosse mérito, a classe E — a que trabalha mais e ganha menos — seria a mais abençoada do país. E é a mais esquecida.
O que me atravessa não é a política do dado. É o silêncio em torno dele. Nos salões, nos púlpitos, nas mesas onde sentei a vida inteira, a classe E não tem cadeira — é moeda. E ninguém pergunta por que a moeda votou contra o dono do cofre.
O pastor citou, na fala, um colunista[5] que sustenta que o brasileiro médio não quer Estado protetor: quer empreender, quer conquistar — e que isso é digno.
Eu li o tratado por baixo: é a cláusula mais antiga do Deus feudal, a que converte direito em favor. Saúde, habitação, trabalho — quando viram favor, quem distribui vira senhor; quem recebe vira devedor.
E devedor vota no credor, acreditando nas fábulas.
Os cientistas políticos têm um nome para a força que organizou as outras classes: antipetismo — e o estudam há mais de uma década como identidade que sobrevive a candidatos, programas e escândalos.
Mas identidade explica o voto das classes com mesa farta. Não explica a classe E. A classe E votou contra a teologia que a condena — sem ler Nietzsche, sem conhecer o nome do mecanismo.
Votou com o corpo: com as duas horas de ônibus na ida e duas na volta, com a fome de justiça de quem tem o pão negado.
Por isso o dado incomoda tanto: discuti-lo obriga a mesa a ouvir a ovelha testemunhar contra a teologia do lobo[6].
O pastor citou Nietzsche — e eu, que já negociei com regimes que citavam filósofos sem tê-los lido, reconheci o gesto.
Nietzsche dizia que a fé cristã é a religião da ovelha: a moral da compaixão inventada pelos fracos para amansar os fortes. Na fábula dele, os cordeiros apontam o pássaro de rapina e dizem: mau é o que poderia não nos devorar[7].
O pastor usou a fábula ao contrário — e foi aí que eu vi o lobo citar o lobo. Disse que o que venceu na história não foi o evangelho: foi o cristianismo — de índole de lobo, de conquista, de hierarquia, de domínio.
E disse mais: "nós não somos nem ovelhas nem lobos". Bonito. Só que a mesa tem dois lugares — e nenhum deles se chama "ser humano".
Porque o teste de Nietzsche não poupa ninguém: se a moral da compaixão é invenção da fraqueza, ela alcança o evangelho também — a compaixão é o evangelho inteiro.
E se a crítica vale contra a ovelha, vale em dobro contra o púlpito que prega domínio: a teologia da conquista é a vontade de potência batizada — Nietzsche citado por quem o leu no resumo, o predador citando o predador, para ovelhas que aprendem a morder.
Há um texto antigo que avisa contra lobos vestidos de ovelha[8]. O que vejo na tela de LED é a inversão completa: o lobo vestido de pastor, pregando para ovelhas — até que virem capatazes, por mérito[9]. A conversão ao contrário.
Na tela, o deus que se anuncia é um sócio: dá vantagem competitiva a quem investe. Não é invenção nova — é uma cláusula com atas.
Há quem o tenha redigido com frieza metodológica: os institutos de uma lei bíblica que manda ocupar a nação e governá-la[10].
Há quem o tenha documentado como projeto político: a direita religiosa que atravessou o século XX acumulando território[11].
Há quem tenha escrito a história da bênção como direito adquirido: a teologia da prosperidade, que mede a fé em planilha[12].
Há quem tenha mostrado a raiz: a prosperidade como sinal de eleição, o rico como o escolhido[13].
E há quem tenha mapeado a firma brasileira: o neopentecostalismo como empresa religiosa, com filiais, marca e franquia[14].
O que há de novo é só o verniz. A teologia coach[15] não fala em pecado — fala em falta de foco. Não fala em conversão — fala em performance. O sujeito de desempenho que se explora pela positividade[16] encontrou no púlpito o seu templo perfeito: um deus que não exige arrependimento, exige metas.
Eu, que redigi tratados, reconheço o articulado: dízimo como aporte, bênção como dividendo, fé como alavancagem, testemunho como marketing.
O altar vazio que aprendi a habitar e o altar com metas trimestrais: entre os dois, a distância exata entre o Amor e a estratégia.
E a ovelha? A ovelha que pede compaixão ao lobo — pede ao lobo que a deixe viver — já foi domesticada pelo lobo.
Aprendeu que a fome é falta de fé, que a dívida é falta de mérito, que o chicote é correção. Não é metáfora: no domingo da apuração, a deputada[17] mais votada da história de Santa Catarina ajoelhou no meio da rua e comemorou os 560 mil votos estalando um chicote no chão. O adorno do senhor, troféu da eleita.
Essa é a prova que a estrada me deu: o lobo não precisa devorar a ovelha. Basta que a ovelha acredite na teologia do lobo.
O mérito é a teologia oficial da mesa. Diz ao vencedor que merece a vitória; diz ao vencido que merece a derrota[18].
É a doutrina mais eficiente que já vi operar: não precisa de polícia, porque o humilhado se autopolui — chama de justiça a própria humilhação.
Por baixo, corre a velha conversão do ser em mercadoria: o trabalho humano tratado como qualquer mercadoria — a mercadoria fictícia, que não pode ser vendida sem ser destruída[19].
Tudo é mercadoria, inclusive o ser humano. A classe E sabe disso no corpo: é a mercadoria que cruza a cidade de ônibus para produzir a mesa farta que vota contra ela.
Aqui a minha lente me desarma. Eu vivi do mérito — da nota do concurso à cadeira que o desempenho me deu.
Desmascarar o mérito como teologia é desmascarar a cláusula que me justificava à mesa. E agora? Quem media sem mérito? Com que direito um homem promovido por desempenho denuncia a teologia do desempenho?
Não sei mais se ainda exerço o ofício — ou se o ofício me exerceu.
Minhas reflexões não resolvem. Quem senta à mesa sem mérito, senta por graça — e graça, descobri no altar vazio, não é o que a mesa sabe administrar.
Caro Barnabé,
Escrevo-lhe de um banco de praça numa cidade que só tem nome no mapa. Guardei o seu adiamento — algumas perguntas merecem mais que a pressa de uma mesa — e esta carta não cobra a resposta: soma uma pergunta à sua espera.
No café, você perguntou se dá para conviver com quem quer decretar o país em nome de Deus — e se dá para conviver sem virar exatamente o capataz que denuncia. Ouvi. Agora venho devolver a pergunta com o que a estrada me mostrou.
Vi um templo com tela de LED prometendo prosperidade — data marcada, parcelas fixas. Vi a estatística que ninguém discute: só a classe E votou fora do coro.
Descobri que o seu capataz e o meu lobo vestem peles diferentes — a sua túnica de capataz, a minha mesa de negociação, o púlpito que decreta domínio.
O capataz administra a opressão com eficiência; o lobo a prega como evangelho. Mesmo animal. Duas liturgias. Várias teologias.
Minha pergunta é esta: dá para mediar entre o lobo e a ovelha quando uma delas já foi domesticada? Que mesa é essa, em que uma das partes aprendeu a pedir, como graça, o que lhe tiraram como direito?
Você passou a vida construindo pontes; eu, redigindo tratados. Mas que ponte serve para um lado que não quer atravessar — quer arrendar?
Continuo sendo o rato que aprende a não virar gato. Só que o gato tem um primo maior, que prega. E a ovelha que pede compaixão ao lobo já foi domesticada pelo lobo — essa frase não me larga.
Talvez porque eu tenha sido ovelha de lobo a vida inteira: servi a um Deus feudal achando que servia ao Amor.
Escreva do lugar de onde a resposta possa ser feita — como você me ensinou, adiando.
Silas, o que serviu ao poder e aprendeu a ir a pé.
* * *
Silas dobra a carta e a guarda na mochila, junto ao envelope pardo que nunca chegou a usar. A tela de LED continua na esquina, girando palavras: propósito, vitória, conquista.
Ele a olha uma última vez — não com ódio; com a precisão de quem lê um contrato que já assinou e não assina mais.
Fica a pergunta, e o Curador a repassa ao leitor sem amenizá-la: rastreie onde a sua fé virou estratégia. Onde ela pede vantagem. Onde mede bênção em planilha. Onde elege inimigos e chama de batalha espiritual a própria preguiça de amar. Onde audita o pobre e absolve o mérito. Onde o seu deus parece demais com o seu gerente.
Não se apresse em responder. A pergunta é de estrada: caminhe com ela.
E se este ensaio atravessou você como um fragmento — a cadeira continua vazia. Sente-se. Reparta a sua pergunta nos comentários ou pelas redes; o caderno de registro desta posta fica aberto. Peregrino que chega é resposta que ainda não sabíamos pedir.
No altar vazio, a Presença que se deixa acompanhar não pede mérito: pede companhia. E a oração que ficou do café segue sendo a medida exata do que a mesa não sabe administrar: pão a quem tem fome; fome de justiça a quem tem pão. Que a nossa fé nunca cobre pelos dois.
* * *
Notas de Rodapé:
[1] Ensaio de Silas: 007 — O Abraço Cinzento e Amargo.
[2] Ensaio de Silas: 008 — O Deus que Habita na Fragilidade.
[3] Silas do latim "Silvanus" — "o que pertence à floresta", aquele que habita onde não há muros. Na tradição bíblica, Silas foi companheiro do apóstolo Paulo, um homem de fronteira que circulava entre mundos, jamais fixo num só palácio. O nome já anunciava o peregrino antes mesmo de ele saber que o era.
[4] Ensaio-Crônica do Curador> 022 — Quatro Estradas, Uma Mesa que abre o ciclo O Brasil das Urnas — o encontro dos quatro peregrinos no café, diante da transmissão de O Brasil das Urnas, do pastor Ed René Kivitz (07/10/2026).
[5] DÓRIA, Pedro (n. 1958), jornalista e escritor brasileiro, colunista de O Globo e fundador do Meio. Em "A elite de esquerda se percebe altruísta. É só alienada" (O Globo, 6.out.2026), cruzando as seções eleitorais com a PNAD Contínua do IBGE. Lula venceu em uma única faixa social, a classe E (54,4%), chegou perto na classe A (40,1% ante 48,7%) e sofreu na classe C a maior derrota (53,5% a 37,2%) — a elite, resume a coluna, "gosta do brasileiro pobre que imagina, despreza o que existe". Na Rádio Metrópole (Metro 1, 7.out.2026), fixa a frase: "a classe E foi a única faixa social em que Lula venceu" — e "a surra eleitoral veio na classe C". É deste dado que Silas parte: a classe que mais trabalha e menos ganha foi a única que o herdeiro do sobrenome não convenceu.
[6] Teologia do Lobo: expressão forjada aqui, a partir da fábula que atravessou o café, para nomear a fé que converte o predador em doutrina e a presa em culpada. Não é jargão consagrado — é o nome que Silas dá ao que vê. Volta a ela no item 4.3.
[7] NIETZSCHE, Friedrich (1844–1900), filósofo alemão. Em Genealogia da Moral (Zur Genealogie der Moral, 1887), narrou a fábula dos cordeiros e do pássaro de rapina (I, 13): os fracos inventam a moral que torna a própria fraqueza virtude e a força do outro crime. Silas ouve a fábula ao contrário no púlpito: o lobo que prega a moral do rebanho até que as ovelhas aprendam a morder.
[8] Texto bíblico em Mateus 7:15.
[9] Ensaio de Barnabé: 003 — O Poder não Aceita a Fragilidade.
[10] RUSHDOONY, Rousas John (1916–2001), teólogo e filósofo estadunidense de origem armênia. Em Institutos da Lei Bíblica (The Institutes of Biblical Law, 1973), sistematizou o projeto de submeter as nações à lei bíblica — o mandato de domínio convertido em programa político. Silas reconhece no prospecto da tela de LED a cláusula que sempre esteve no tratado não escrito do poste.
[11] DIAMOND, Sara (n. 1958), socióloga, jornalista e advogada estadunidense. Em Roads to Dominion (1995), documentou a ascensão da direita religiosa estadunidense e o dominionismo — a estratégia de ocupar as instituições para governá-las em nome de Deus. Silas vê o mesmo mapa sendo impresso em português, agora com tela de LED.
[12] BOWLER, Kate (n. 1980), historiadora canadense da religião. Em Blessed (2013), traçou a história acadêmica da teologia da prosperidade: a bênção como direito adquirido, a fé que se mede em planilha e se declara em voz alta. Silas, que negociou dívidas de países, reconhece a contabilidade: um deus que presta contas como sócio.
[13] WEBER, Max (1864–1920), sociólogo alemão. Em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (Die protestantische Ethik und der Geist des Kapitalismus, 1905), mostrou como a prosperidade virou sinal de eleição — a raiz histórica da meritocracia religiosa. Silas entende o dízimo como aporte e a bênção como dividendo: a ovelha eleita é a que engorda.
[14] MARIANO, Ricardo, sociólogo brasileiro, professor do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo e pesquisador do CNPq. Em Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil (Loyola, 1999; 2. ed., 2005), demonstra como o neopentecostalismo deslocou o eixo da fé pentecostal para a guerra espiritual e para a promessa de prosperidade material — a religião que oferece o mundo ao fiel e cobra dele o dízimo.
[15] COSTA, Ranieri Vicente da, teólogo, jornalista e pastor evangélico brasileiro, mestre em Linguagens, Mídia e Arte (PUC-Campinas) e doutorando em Comunicação e Cultura (Uniso). Em Teologia Coaching: a ilusória ideologia de que nascemos só para vencer (Fonte Editorial, 2024) e na entrevista "A Teologia Coaching vende a ilusão do sucesso à sociedade do desempenho adoecida", concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos (25.out.2024), descreve a teologia coaching como desdobramento da teologia da prosperidade: uma fé que retira Deus da relação e devolve ao sujeito a culpa inteira pelo próprio fracasso — "o sujeito que não alcança o sucesso é o único culpado pelo seu fracasso"
[16] HAN, Byung-Chul (n. 1959), filósofo sul-coreano. Em Sociedade do Cansaço (Müdigkeitsgesellschaft, 2010; trad. bras. Enio Paulo Giachini Jr., Vozes, 2015) e Psicopolítica (Psychopolitik, 2014; trad. bras. Enio Paulo Giachini Jr., Vozes, 2018), descreveu o sujeito de desempenho que se explora pela positividade — sem patrão externo, com metas internalizadas. Silas reconhece na teologia coach o mesmo mecanismo: o pecado rebaixado a falta de foco, a salvação como performance — e a fatura que ele mesmo um dia pagou.
[17] Júlia Zanatta (PL-SC), reeleita deputada federal com mais de 560 mil votos — recorde da história de Santa Catarina — comemorou a vitória, em 4 de outubro de 2026, estalando um chicote no chão; o episódio gerou críticas que associaram as chicotadas à escravidão (Poder360, UOL, G1 e O Globo, 5–7.out.2026).
[18] SANDEL, Michael (n. 1953), filósofo estadunidense. Em A Tirania do Mérito (The Tyranny of Merit, 2020), mostrou que a meritocracia humilha nos dois sentidos: convence o vencedor de que merece a vitória e o vencido de que merece a derrota. Silas vive do mérito — e ao desmascará-lo como teologia, fica sem a cláusula que o justificava à mesa.
[19] POLANYI, Karl (1886–1964), economista húngaro. Em A Grande Transformação (The Great Transformation, 1944), chamou de mercadoria fictícia o trabalho humano — algo que não pode ser tratado como mercadoria sem ser destruído. Silas anota a fatura da mesa: a classe E que atravessa a cidade em quatro horas de ônibus é a mercadoria viva que produz a mesa farta que vota contra ela.
* * *
Tenho quase sete décadas e já vi a ovelha ser culpada muitas vezes — na fábrica, na fila, na praga do mérito.
Este ensaio me custou a escrever porque me acusa também; publiquei-o porque acusar a si mesmo é o único modo honesto de acusar. Às vezes percebo minha esperança se esvaziar.
Vejo um Ed René esperançoso e corajoso em suas reflexões na transmissão O Brasil das Urnas, esperando que não seja tão catastrófico como vários analistas apontam. Quero me juntar a ele. Espero que seja melhor do que o desenhado.
A ovelha continua na esquina, e a mesa continua aberta.
Arnoldo Mendonça - 18 de outubro de 2026
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