A Oficina é Minha Capela Neste ensaio de Cleófas é o testemunho de um homem que aprendeu a ficar. O barco ainda não flutua — mas a oficina, onde o barco foi sonhado, tornou-se um lugar habitável. Ele já não luta contra o vazio; começa a descobrir que o vazio não se preenche nem se decora: habita-se. A madeira na bancada, a plaina, a serragem no chão — tudo isso deixou de ser projeto inacabado para se tornar liturgia. Cleófas continua sendo o peregrino de Emaús, mas a estrada já não é a mesma. Na primeira caminhada, ele ia para longe — carregando o peso de uma expectativa desfeita. Agora, ele descobriu algo que o texto de Lucas apenas sugere: que o companheiro de estrada sempre esteve ali, mesmo quando não era reconhecido. Este ensaio não é sobre reencontrar o que se perdeu. É sobre aprender a habitar o espaço da perda — e descobrir que apontar a proa para leste, mesmo sem zarpar, já é uma forma de travessia. 1. Nota do Curador Depois do naufrágio, o que resta não...
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O Naufrágio de um Sonho Cleófas [1] desaba de seu sonho, vê suas esperanças escorrendo pelas fissuras do casco, é um homem que ainda está caindo em queda livre. Seu barco bateu forte contra o recife, vê a água entrando por todos os lados. Sua bússola gira alucinada, perdeu o norte, perdeu a vida. Já não pensa, sua mão ainda segura o balde furado. Seu caderno de engenharia com seus processos boia absorvendo a água e suas anotações começam a se dissolver. Enquanto cai, imagens trafegam bruscamente em sua mente. A calçada da universidade. As últimas palavras. O sorriso fixando em sua mente a imagem do pai. O ódio à esperança que falhou. "Esperávamos" — dito com um convencimento raso, quase ensaiado. Aquele que parece acreditar se agarrando ao fio de esperança prestes a romper. Cleófas do caminho de Emaús reconhece o Cristo quando o pão é partido. Nosso Cleófas ainda não viu pão algum. O que ele tem é o caminho de volta — sem a esperança que o levara adiante. É dis...
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O Deus que Habita na Fragilidade Ensaio sobre o que acontece depois que Silas [1] , o pacificador decepcionado ao descobrir que a paz que aprendeu a construir não passa de um armistício bem redigido. A praça ficou para trás, mas o adesivo no poste ainda arde na memória. Silas caminha — não porque saiba para onde vai, mas porque parar, depois do que viu, seria insuportável. A estrada sob os pés é poeirenta, incerta, e cada passo exige que ele abra mão de alguma certeza que carregava desde que aprendeu a negociar a paz dos outros. Ele descobre, agora, que desmontar um altar dentro de si é mais demorado do que denunciar o altar alheio. A Catedral e o Palácio continuam abraçados — isso ele já não pode desfazer. Mas há um templo dentro dele que também precisa ser esvaziado. E o silêncio que encontrará ali talvez seja o único lugar onde o Amor Eterno caiba sem precisar competir com ídolos. 1. Nota do Curador Encontrei este segundo texto de Silas dentro do mesmo enve...