Cleófas[1] desaba de seu sonho, vê suas esperanças escorrendo pelas fissuras do casco, é um homem que ainda está caindo em queda livre. Seu barco bateu forte contra o recife, vê a água entrando por todos os lados.
Sua bússola gira alucinada, perdeu o norte, perdeu a vida. Já não pensa, sua mão ainda segura o balde furado. Seu caderno de engenharia com seus processos boia absorvendo a água e suas anotações começam a se dissolver.
Enquanto cai, imagens trafegam bruscamente em sua mente. A calçada da universidade. As últimas palavras. O sorriso fixando em sua mente a imagem do pai. O ódio à esperança que falhou.
"Esperávamos" — dito com um convencimento raso, quase ensaiado. Aquele que parece acreditar se agarrando ao fio de esperança prestes a romper.
Cleófas do caminho de Emaús reconhece o Cristo quando o pão é partido. Nosso Cleófas ainda não viu pão algum.
O que ele tem é o caminho de volta — sem a esperança que o levara adiante. É disso que trata este ensaio: do momento em que a esperança ainda está quente no chão, e ninguém sabe ainda se vale a pena juntar os cacos.
* * *
Mas antes de seguirmos com ele, é preciso dizer como estes escritos chegaram até nós. Eles chegam até nós nem sempre inteiros. Às vezes vêm em fragmentos — um caderno de capa dura com marcas de serragem, algumas folhas soltas dentro de um envelope pardo, um nome escrito a lápis no canto superior direito. Foi assim que encontramos os escritos deste peregrino.
Sabemos pouco sobre ele. Era engenheiro. Amava o mar. Passava os fins de semana na oficina no fundo da casa, modelando peças de madeira com a paciência de quem aprendeu cedo que a pressa estraga a peça final.
Perdeu uma filha numa manhã ensolarada. Não houve despedida. Não houve carta. Apenas mensagens e telefonemas sem nenhuma resposta — um silêncio que nunca mais se desfez[2].
Cleófas é o peregrino da estrada de Emaús[3]. Há dois mil anos atrás ele caminhava com o coração pesado ao lado de um companheiro, conversando sobre a morte injusta que acabara de testemunhar.
Sua fala, registrada no evangelho, é uma das mais humanas de toda a Escritura: "Nós esperávamos que fosse ele o que havia de redimir Israel."
Esperávamos.
É aí que Cleófas é transpassado pela decepção. Não está em dúvida sobre os fatos. Está em luto por uma expectativa desfeita. O Messias morreu. O reino não veio. O caminho de Emaús é um caminho de volta para casa sem a esperança que o impulsionava a seguir em frente.
O mesmo verbo, a mesma estrutura de queda, aparece nos escritos do nosso Cleófas — um pai que vê parte de si se desfazendo:
"Imaginei que se ela estivesse focada nos estudos, nos remédios, nas consultas; o amor e o acolhimento seriam suficientes para segurar suas mãos por mais vinte e quatro horas."
Imaginei que. Esperávamos que. Ambos esperaram. Ambos viram a morte vencer. Ambos caminham agora com o peso de um "nós esperávamos que" que não se cumpriu.
A diferença? No relato de Lucas, Cleófas reconhece o Cristo quando parte o pão — não quando recebe uma explicação teológica[4]. No gesto simples de compartilhar a comida, no meio do vazio da mesa que já não tinha o que esperar, o coração se aquece.
Mas aqui, nosso Cleófas não teve essa aparição. Não viu ninguém partir o pão. O que encontrou, na oficina vazia, foi a madeira esperando, estática, fria.
Nenhum coração aquecido. Está congelado. Nenhuma descoberta. A esperança despedaçada no chão, se dissipando, submergindo. Apenas o vazio.
Cleófas era engenheiro. Passara a vida resolvendo problemas: calculava vigas que não cedem, projetava estruturas que resistem, desenhava soluções onde outros viam apenas entraves.
A engenharia lhe ensinara que todo problema tem equação, que toda falha tem causa, que todo desabamento pode ser prevenido com o coeficiente de segurança correto.
Mas a morte não é um problema de engenharia.
A calçada da universidade onde ele disse as últimas palavras à filha tornou-se o centro geométrico do seu mundo — um ponto fixo para onde todos os vetores convergem.
Ele volta lá. Estaciona lentamente seu jipe no mesmo lugar. Desliga o motor. Fica olhando para o ponto onde ela deixou um sorriso estampado em sua alma e virou as costas para nunca mais.
Nunca mais! Nunca mais é muito maior que sua própria compreensão, parece não caber em tudo que aprendeu. Nunca mais!
Imagina reprocessar seus cálculos. Como se o tempo pudesse ser desfeito. Como se o "vai dar tudo certo" pudesse ser retirado do ar como uma folha de projeto arrancada de um caderno.
O jipe não é um mosteiro sobre rodas. É só um carro velho que não anda rápido. A estrada, naquela manhã, não ensinou nada. Ela apenas estava lá. Mas ele continua voltando. Não por esperança. Por incapacidade de estar em outro lugar.
O que um engenheiro faz quando a estrutura cede sem aviso? Quando o cálculo estava certo e ainda assim o pilar trincou? Ele revisa o projeto. Refaz as contas. Busca o erro.
Cleófas revisou, refez, buscou. Não encontrou. Porque não havia erro no projeto. Havia erro na premissa: a de que o amor seria suficiente para segurar as mãos de alguém por mais vinte e quatro horas.
A estrada à sua frente é empoeirada. Os pés doem. A mochila pesa. Ele não sabe ainda que o caminho de Emaús não se faz com explicações, mas com pão partido.
Ele só sabe que precisa andar — mesmo que seja em círculos, mesmo que seja de volta para o mesmo lugar. Caminha sem sua bússola, despedaçada no impacto.
* * *
Foi o fragmento que me encontrou e me quebrou. Não uma carta. Não uma notícia. Foi uma frase que eu mesmo escrevi, num rascunho antigo, quando ainda tentava entender o que tinha acontecido. Eu disse:
"Imaginei que se ela estivesse focada nos estudos, nos remédios, nas consultas, o amor e o acolhimento seriam suficientes para segurar suas mãos por mais vinte e quatro horas."
Imaginei que.
Ler essa frase meses depois foi como encontrar um bilhete escrito por um estranho que usa o meu nome.
Quem era aquele homem que achava que o amor era uma estrutura de contenção? Quem era aquele engenheiro que projetava a filha como se projeta uma viga — calculando a carga, prevendo o desgaste, confiando que o material resistiria?
O encontro não foi com um texto alheio. Foi com a minha própria voz gravada no papel, e ela me soou estrangeira.
O que me atravessou naquele instante foi o abismo entre o que eu era antes de escrever aquela frase e o que me tornei depois de relê-la.
O homem que escreveu "imaginei que" ainda acreditava que o mundo obedecia a projetos. O homem que relê sabe que o mundo obedece a silêncios[5].
Reli o texto de Joel[6] – Aprendendo a [não] Orar. Ele escreveu e deixou a ferida aberta. Não cicatrizou no papel. Apenas aprendeu a conviver com o altar vazio.
Eu construí altares bonitos, mas líricos demais. Eram armadilhas. A poesia do luto é traiçoeira: ela dá ao sofrimento uma dignidade que ele não tem.
A morte não é digna. Ela é grotesca[7]. É um silêncio estúpido num dia que começou ensolarado. É uma xícara de café que esfria na mesa enquanto o telefone toca. Não há beleza nisso.
Me percebi tentando emoldurar o desabamento e chamar de arte. Mas desabamento não é arte. É entulho. É desesperança. É ruína. É o fim.
Escrevo, reescrevo. Não para apagar o que foi dito, mas para desconfiar da minha própria voz. Uma voz que já não a reconheço.
Minha filha partiu numa manhã ensolarada. Não houve despedida. Não houve carta. Não houve "vou embora".
Houve um telefonema e um silêncio que continuou depois que desliguei, que continuou no dia seguinte, que continua agora enquanto escrevo esta frase. Um silêncio há 13 anos!
O mundo não parou como um veleiro que ancora. Parou como um veleiro que bate no recife e começa a fazer água — mas a metáfora já me trai, porque quem faz água não é o barco. Sou eu. Me tornei apenas água!
O barco não afunda. Eu é que estou dentro dele, segurando um balde furado, vendo a água subir, e ainda assim anotando num caderno de engenharia a taxa de entrada de água por minuto, como se quantificar o naufrágio fosse controlá-lo[8].
Eu tive um sonho. Um veleiro. Projetos, cadernos de engenharia, noites de insônia à espera dos meus sessenta. Era o veleiro em que eu a levaria na sua paixão pelo mar. Ela estaria sempre na popa à espreita do inesperado no horizonte.
Nós modelamos juntos as primeiras peças na mesa construída para esse projeto na oficina que se organizava mais uma vez. Lembro da textura da madeira entre os dedos dela, da concentração no rosto quando ajustava uma peça, do sorriso quando algo encaixava.
Depois que ela partiu, rasguei os papéis. Queimei os desenhos. Destruí as peças que tínhamos modelado juntos. Isso não foi coragem. Foi ódio. Ódio da esperança que falhou. Ódio de cada martelada que demos juntos, porque cada martelada era uma promessa que a morte desmentiu.
Nos primeiros registros que fiz, ainda engatinhando, tentando entender meus pensamentos: "O naufrágio não foi no oceano, foi na alma." Ainda é verdade, mas hoje acrescento: frases assim são bonitas demais.
A alma não naufraga: rasga-se. E rasgada, não boia — sangra.
Aprender a Navegar no Vazio não é aprender a boiar. É aprender a não afundar tentando boiar. E, às vezes, é só afundar mesmo, porque não há técnica de flutuação que segure um corpo que não quer mais ser sustentado.
Foi numa calçada da universidade. O jipe lento rangendo ao meio-fio. Ela desceu com a mochila pesada, os livros, aquele olhar distraído de quem já está pensando na próxima aula.
Eu disse: "Filha, não se preocupe. Amanhã à noite nos veremos e voltaremos juntos para casa. Vai dar tudo certo."
Foram as últimas palavras que ela ouviu de mim.
Não eram mentira. Eram ignorância. Eu não sabia que aquela calçada era o último chão firme que eu pisaria. Depois que ela se foi, tudo passou a ser areia movediça — era a água entrando por todos os lados.
Desaprendi a arrogância de achar que o amor vence a morte. Essa foi a primeira certeza que caiu. O amor não vence a morte. O amor, no máximo, se senta ao lado dela.
Barnabé diria que isso é vulnerabilidade compartilhada.
Joel diria que isso é oração como companhia.
Eu, Cleófas, digo: isso é desistir de ser o herói do próprio filme.
Passei a vida inteira resolvendo problemas. Engenheiro resolve problemas. É o que a gente faz: levanta a hipótese, testa, ajusta, resolve.
Mas a morte não é um problema. Não tem equação. Não tem peça de reposição. Não tem manual. Não tem volta.
Toda a minha formação — os cálculos estruturais, as vigas que não cedem, os projetos que resistem — não serviu para nada naquela calçada[10].
O que serviu? Nada.
O que eu tinha para oferecer a ela naquela manhã? Nada.
Apenas um "vai dar tudo certo" dito por um pai que não sabia que estava mentindo. Apenas um último sorriso e a esperança de revê-la no dia seguinte.
As perguntas que ficaram são as mesmas de sempre. Por que imaginei que o amor seria suficiente para segurar suas mãos por mais 24 horas? Por que projetei minha urgência sobre o mistério do sofrimento dela? Por que confundi cuidado com controle, presença com garantia, afeto com eficácia?
Não responderei. Apenas repetirei, como Joel repete o silêncio.
Algumas perguntas não são feitas para serem respondidas. São feitas para serem carregadas. Para doerem a cada passo. Para lembrarem ao engenheiro que há problemas que nenhuma engenharia resolve — e que a sabedoria não está em consertá-los, mas em aprender a carregá-los sem se curvar até o chão.
Desse desaprender ficou algo cravado.
Já tentei descrever meus movimentos, meus pensamentos, minhas emoções. Antes parecem passos de um método. Não são.
São tentativas. E toda tentativa, quando escrita, corre o risco de virar receita.
Ainda assim, preciso nomear o que estou vivendo, mesmo que seja provisório. Mesmo que esteja errado. E o sentimento que explode no meu peito se revela na palavra estilhaço. Aceitar que o vazio não se preenche.
Durante meses eu tentei preencher. Com trabalho. Com silêncio. Com raiva. Com promessas quebradas. Com projetos novos.
Nada preenche.
O buraco não é um pote vazio que se enche; é uma ausência que se expande. Quanto mais coisa eu coloco dentro, mais ela empurra as bordas. O que aprendi, por enquanto, é que o vazio não se preenche — habita-se[11].
Tenho uma gaveta na oficina onde guardo os estilhaços do que modelamos juntos. De vez em quando abro. Olho. Fecho. Não é um ritual. É apenas a coisa mais honesta que consegui fazer até agora. Talvez habitar o vazio seja isto: abrir a gaveta, reconhecer cada estilhaço, e não tentar colá-los.
Mas o que significa "habitar o vazio"?
Joel responde: habitar é não decorar. É não colocar almofada no buraco. É sentar-se no chão do altar vazio e não tentar reconstruir o altar.
Já pensei, por um tempo, que 'o caco partido poderia ser uma peça nova'. Ainda é otimismo de engenheiro. Ainda é otimismo de engenheiro. O caco partido é só um caco. A beleza virá se vier. Não posso forçá-la. Forçar é decorar nas palavras de Joel.
O que me custa admitir é que o estilhaço não é o ponto de partida para algo maior. Ele é o ponto de chegada. Um naufrágio.
Eu achava que a dor era o começo de um processo — que depois do impacto viria a reconstrução. Não. Depois do impacto, o que vem é a constatação de que não há projeto que recomponha o que se quebrou.
O caco não volta a ser vaso. A peça não volta a encaixar. O máximo que posso fazer é juntar os pedaços e reconhecer, um por um, o que cada um deles significa. Apenas perceber a memória em cada um deles.
Vários desses estilhaços compartilhei com amigos que sentaram comigo no chão, presentes. Uma presença compartilhada.
Não há vazio a ser preenchido.
Quando Joel escreveu sobre os cinco modos de orar — atenção, lamento, companhia, silêncio, dúvida —, reconheci algo que ainda não tinha palavra para dizer.
Há dias em que nada funciona. Dias sem oração. Dias sem atenção. Dias sem lamento. Dias sem companhia.
O que nomeio aqui como um segundo movimento não é uma técnica nem uma virtude. É uma constatação: dias em que a oficina está fechada. A madeira espera, mas eu não vou. Eu não consigo ir. Eu fico na cama olhando para o teto.
O jipe não sai da garagem. A estrada não me chama. Não há luto produtivo. Não há gesto bonito. Não há plaina que alise o dia. Não há beleza que embeleze meu dia.
Aprendi que esses dias não são fracasso. São o próprio vazio sem disfarce. E talvez sejam a oração mais verdadeira de todas, porque neles não há nenhum esforço de apresentação. Ninguém está olhando. Ninguém precisa ser forte. Ninguém precisa transformar a dor em ensinamento.
O jipe lento, nessas manhãs, não carrega lição alguma. É só um carro velho parado na garagem. Não há estrada para aprender algo.
E eu apenas existo — sem plaina, sem serra, sem intenção. Isso me incomoda profundamente. Engenheiros não foram feitos para existir sem intenção. Mas talvez peregrinos saibam sobreviver assim[12].
Se o primeiro movimento foi aprender a não preencher, este segundo é aprender a não produzir. Não produzir sentido. Não produzir gesto. Não produzir sequer a vontade de sair da cama. É um deserto dentro do deserto.
Joel entendeu isso. Ele chamou de silêncio. Eu ainda não sei como chamar. Chamo de "o que ainda não sei nomear direito". Quem sabe um dia venha o nome.
Não há espaço onde se possa construir.
Pode soar estranho chamar de movimento algo que é quase uma paralisia. Mas a oficina, para mim, tornou-se um lugar onde o gesto substitui a palavra.
Quando não tenho mais o que dizer — e a carta a Joel já disse o pouco que eu sabia —, vou para a oficina.
Lixo a madeira. Aplaino a superfície. Sinto a textura mudar sob os dedos. Não há grande significado nisso. Ou talvez haja, mas não é um significado que precise de explicação.
É a madeira que cede à plaina. É a serragem que cai no chão. É o cheiro do cedro que ocupa o espaço vazio.
Não estou construindo o veleiro — isso já desisti de fazer. O projeto do veleiro, os cadernos queimados, as peças destruídas: tudo isso pertence a um homem que já não existe.
O que faço agora na oficina não tem nome de projeto. Não tem prazo. Não tem especificação técnica. Estou apenas mantendo as mãos ocupadas para que elas não fiquem estendidas para um vazio que não vai devolver nada[13].
Toda noite me pergunto: estou construindo um memorial ou estou fugindo da dor com a beleza? É uma pergunta que não tem resposta definitiva. Às vezes, uma coisa. Às vezes, a outra.
O terceiro movimento não é virtuoso. Ele é ambíguo. A oficina pode ser capela, mas também pode ser disfarce.
Lixar madeira pode ser oração, mas também pode ser anestesia. Não tenho como saber. A única coisa que aprendi é que não saber não me impede de continuar.
O gesto, para mim, é lixar. Nem que seja a mesma peça todos os dias. Nem que a peça não sirva para nada.
Porque o que importa não é a peça pronta — o veleiro talvez nunca fique pronto. Talvez seja apenas um memorial que se apresenta com o nome que escolhi e pronunciei inúmeras vezes até meu último fôlego.
O que importa é a mão que se move. A mão que ainda se move. A mão que, enquanto se move, não precisa implorar ao vazio.
É pouco. É quase nada. Mas por enquanto, é o que tenho.
Querido Joel,
Li de novo "Aprendendo a [não] Orar". Principalmente os cinco modos. Atenção, lamento, companhia, silêncio, dúvida.
Descobri que meus textos anteriores tentavam ensinar o que eu ainda não tinha aprendido. Eu escrevi sobre "navegar no vazio" como se soubesse navegar. Não sei. Aprendo.
Você me ensinou algo que não estava nos seus textos — estava na sua hesitação. Você não fechou o seu ensaio com uma resposta. Fechou com uma dúvida. Com um gesto incompleto. Com a admissão de que orar é, acima de tudo, não saber orar.
O que eu escrevi antes tentava ser bonito. Você me mostrou que a beleza, quando forçada, é uma forma de mentira.
A dor não é bonita. Ela é desengonçada, feia, mal escrita. Tem dias em que a única oração que consigo é ficar em silêncio dentro do carro estacionado na calçada onde ela desceu pela última vez.
Não há palavras. Não há lamento lírico. Há apenas um homem velho dentro de um jipe, olhando para um ponto vazio.
Isso é oração? Não sei. Mas é o que tenho.
Você aprendeu que orar é estender as mãos vazias para o nada. Eu aprendo que navegar no vazio é aceitar que o barco talvez nunca fique pronto. Não porque falte habilidade ou madeira. Porque a prontidão é uma ilusão dos vivos que ainda não perderam nada.
O vazio, Joel, não é uma coisa. É uma relação. Não há vazio "em si". Há vazio entre. Entre mim e o que perdi. Entre a proa e o horizonte. Entre a mão que aperta o parafuso e a mão que não estará ali para cuidar da faina nas velejadas.
Cuide-se na estrada.
Cleófas, com serragem nas mãos e nada nos bolsos, apenas o Vazio.
* * *
O que lemos não é um testemunho de superação. É um testemunho de permanência na fratura. Ele não encontrou respostas. Não reconstruiu o barco. Não aprendeu a navegar. Apenas parou de tentar preencher o vazio com palavras bonitas.
A calçada da universidade continua lá. O jipe continua estacionado. O silêncio continua depois do telefonema. Mas há algo que mudou: Cleófas já não mente sobre o que sente. A beleza cedeu lugar à verdade — mais feia, mais seca, mais difícil de ler, mas infinitamente mais honesta.
Ele não sabe o que vem depois. Nós, que organizamos estes escritos, também não. A diferença é que agora ele está disposto a não saber.
O primeiro movimento do luto, afinal, não é reconstruir. É parar. E parar, para um engenheiro que passou a vida construindo, é talvez o gesto mais difícil de todos.
A estrada de Emaús continua. Cleófas ainda caminha. Mas pela primeira vez desde a manhã ensolarada, ele não está tentando chegar a lugar nenhum. Está apenas andando. Já não sabe se há algo a se alcançar.
O pó dos pés, o rangido do jipe, a madeira que espera na oficina — isso, por enquanto, é o bastante.
O coração não se aqueceu ainda. Não há pão partido. Há apenas um homem que desistiu de ser o herói do próprio filme e, ao desistir, começou a ser verdadeiro — e vazio.
* * *
Notas de Rodapé:
[1] Cleófas: nomeei esse peregrino ao perceber sua semelhança com o discípulo de Emaús caminhando sem esperança — está se afastando de Jerusalém convencido de que a história que estava vivendo terminara em um fracasso retumbante.
[2] BOSS, Pauline. Ambiguous Loss: Learning to Live with Unresolved Grief. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1999. Boss cunhou o conceito de "perda ambígua": aquela sem fechamento, sem corpo, sem ritual de despedida — exatamente o que Cleófas vive com a filha que simplesmente parou de responder.
[3] Referência ao texto bíblico de Lucas 24.
[4] WILLIAMS, Rowan. Resurrection: Interpreting the Easter Gospel. London: Darton, Longman and Todd, 1982. 2. ed. Cleveland: Pilgrim Press, 2002. Williams argumenta que o reconhecimento em Emaús não acontece por doutrina, mas por um gesto — o partir do pão. É a estrutura teológica que sustenta todo o ensaio.
[5] LEWIS, C. S. A Grief Observed. London: Faber and Faber, 1961. Publicado em português como: LEWIS, C. S. A Anatomia de um Luto. Tradução de Thereza Christina F. Stummer. São Paulo: Martins Fontes, 1996. Lewis descreve o luto como um estado em que o intelecto se cala — o silêncio que Cleófas descobre é o mesmo que Lewis registra ao constatar que nenhuma explicação teológica sustenta o peso da perda.
[6] Aprendendo a [não] Orar: ensaio de Joel refletindo sobre a desconstrução das maneiras certas de orar, ele percebe que sua realidade o leva a outras formas de expressar-se diante da Presença do Eterno.
[7] DEVINE, Megan. It's OK That You're Not OK: Meeting Grief and Loss in a Culture That Doesn't Understand. Boulder: Sounds True, 2017. Publicado em português como: Tudo Bem Não Estar Tudo Bem: Vivendo o luto e a perda em um mundo que não aceita o sofrimento. Tradução de [verificar]. Rio de Janeiro: Sextante, 2021. Devine denuncia a cultura que exige "superação" e emoldura a perda como lição — exatamente o que Cleófas denuncia ao recusar a beleza forçada.
[8] DIDION, Joan. The Year of Magical Thinking. New York: Alfred A. Knopf, 2005. Publicado em português como: DIDION, Joan. O Ano do Pensamento Mágico. Tradução de Paulo Reis. São Paulo: Globo, 2006. Didion registra o próprio luto com o mesmo olhar analítico — uma escritora dissecando a perda como Cleófas tenta calcular o naufrágio.
[9] PESSANHA, Juliano Garcia. Sabedoria do Nunca. São Paulo: Ateliê Editorial, 1999. ——. Ignorância do Sempre. São Paulo: Ateliê Editorial, 2000. ——. Certeza do Agora. São Paulo: Ateliê Editorial, 2002. ——. Instabilidade Perpétua. São Paulo: Ateliê Editorial, 2009. ——. Recusa do Não-Lugar. São Paulo: Ubu Editora, 2018. Pessanha trabalha o "desaprender" como movimento necessário diante do que não se deixa capturar pelo conhecimento — Cleófas desaprende a engenharia da alma, e Pessanha oferece a moldura filosófica para esse gesto.
[10] WOLTERSTORFF, Nicholas. Lament for a Son. Grand Rapids: Eerdmans, 1987. Publicado em português como: WOLTERSTORFF, Nicholas. Lamento por um Filho. Tradução de Susana Klassen. Viçosa: Ultimato, 2004. Wolterstorff, filósofo e teólogo, perdeu o filho Eric, de 25 anos, num acidente de montanhismo. Escreveu: "I cannot fit it all together" — a mesma falência do conhecimento técnico diante da morte que Cleófas experimenta.
[11] CAPUTO, John D. The Weakness of God: A Theology of the Event. Bloomington: Indiana University Press, 2006. (Indiana Series in the Philosophy of Religion). Caputo desenvolve a "teologia fraca": Deus não como superagente que intervém, mas como força débil que acompanha — o Deus que não impediu a morte não falhou, apenas não opera por poder.
[12] BRUEGGEMANN, Walter. Interrupting Silence: God's Command to Speak Out. Louisville: Westminster John Knox Press, 2018. Brueggemann distingue o silêncio reverente do silêncio imposto — e o silêncio de Cleófas no jipe é o silêncio de quem não tem mais nada a dizer, que Brueggemann reconhece como forma legítima de presença.
[13] CRAWFORD, Matthew B. Shop Class as Soulcraft: An Inquiry Into the Value of Work. New York: Penguin Press, 2009. Publicado em português como: CRAWFORD, Matthew B. O Valor do Trabalho: Uma Investigação sobre o Sentido do Trabalho Manual. Tradução de Cláudio Carina. Rio de Janeiro: Record, 2011. Crawford defende que o trabalho manual oferece um tipo de inteligência que o trabalho intelectual não alcança — a plaina de Cleófas substitui a palavra exatamente nesse sentido.
* * *
Aceitar que não sei mais orar talvez tenha sido a experiência mais libertadora que vivenciei ao perceber-me sem esperança, absolutamente despedaçado e prostrado sem saber mais como viver — me expressando melhor: sem saber mais como sobreviver.
Sobreviver é também sobre viver! Aprendendo há 13 anos.
Arnoldo Mendonça – 4 de junho de 2026
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