Há caminhos que se percorrem com os pés, e há caminhos que se percorrem com a alma. Joel pertence a esses últimos.
Seu nome, de origem hebraica, carrega uma declaração que atravessa séculos: “Yahweh é Deus” — uma afirmação de que o Eterno não está distante, mas é o chão sob cada passo e o horizonte adiante.
Apresento-lhes Joel. Se Efraim é o arquiteto que aprendeu a beleza das ruínas e Barnabé o mediador que se recusou a conciliar o Amor com o Império, Joel é aquele que ficou com o silêncio que sucede a demolição.
Seu nome carrega uma ironia sagrada: O Eterno é Deus.
Mas, para Joel, o Eterno não é mais uma categoria teológica de poder, e sim o nome do abismo que ele fita todas as noites.
Ele não traz pedras para o altar, nem marretas para a desconstrução. Ele traz apenas as mãos vazias e uma sensibilidade quase dolorosa para o que resta quando as palavras cansam.
Joel é o peregrino da hesitação, aquele que descobriu que a oração mais honesta nasce do não saber.
Ele é o guardião das conchas vazias, aquele que escuta o mar onde todos os outros veem apenas deserto.
Seu ofício sempre foi o de buscar frequências. Como alguém que ajusta um rádio antigo em meio à estática, passou anos tentando sintonizar a voz de Deus.
Na sua juventude, acreditava que a oração era uma forma de engenharia acústica: projetavam suas vozes contra o teto dos templos, calculando o ângulo perfeito da confissão para que o eco voltasse sob a forma de bênção ou resposta.
Ele era um técnico do sagrado, alguém que acreditava que, se as palavras fossem certas e o tom fosse piedoso, o Invisível seria obrigado a se manifestar.
Hoje, sua mochila não carrega manuais de liturgia ou tabelas de frequências. Ela carrega apenas o peso do que ficou, após tudo que já desaprendeu.
Caminhar sob o sol escaldante, sentindo o suor escorrer como um batismo de realidade, ensinou a Joel que a oração não é um pedido enviado a um escritório celestial. É o ato de segurar uma concha vazia no ouvido em pleno deserto e imaginar estar ouvindo o som do mar.
Não há mar por perto. Seus pés rachados e a garganta seca são provas de que o oceano é uma memória distante ou uma promessa incerta — aquela imaginação que faz bem à alma.
Mas o som do infinito continua lá, inaudível , apenas vibrando no vácuo da concha.
"Orar é habitar a ressonância do que nos excede, sem a pretensão de capturá-lo."
É o desapego das ferramentas de medição para aceitar que o Mistério não se sintoniza; ele se presencia, se imagina.
* * *
O sol estava a pino quando encontrei os rastros deles. Eram folhas amassadas, presas nos espinhos de uma acácia solitária, meio ilegíveis pela chuva ácida da dúvida e pelo pó das estradas.
Reconheci primeiro a caligrafia firme de Efraim[1][2], o arquiteto que aprendeu a demolir. Ele escrevia sobre Esdras — a reconstrução do altar em Jerusalém — e citava o texto sagrado com uma dor que eu podia também sentir:
"E firmaram o altar sobre as suas bases, porque o medo estava sobre eles por causa dos povos das terras".
A frase me atingiu como uma marreta. O medo. Não a devoção, não o amor, não a gratidão — o medo era a fundação do altar. Efraim continuava:
"A motivação para erguer o altar não foi apenas a devoção pura, mas o pavor. O altar era um escudo. Eles acreditavam que, se mantivessem o ritual em dia, se o sangue corresse conforme a regra, Deus estaria obrigado a protegê-los."
Li e reli essas palavras sentindo o estômago se contrair. Eu também construí altares assim. Minha oração de petição era exatamente isso: um escudo contra o medo disfarçado de piedade.
Mas Efraim não parava aí. Ele citava outro texto — "Misericórdia quero, e não sacrifício" — e desmontava o sistema sacrificial com a precisão de um engenheiro que sabe onde a estrutura vai ceder:
"O altar não é o meu ponto de contato com o Divino, mas o para-raios da minha fúria coletiva. Ao projetar meu desejo de sangue na divindade, santifico minha própria crueldade, tornando-a inquestionável e politicamente útil."
Foi então que ele mencionou os nomes de Girard e Wink — dois arquitetos da alma que eu não conhecia.
Girard, com sua Teoria do Bode Expiatório[3], mostrando que a violência humana é canalizada para uma vítima inocente para evitar que a sociedade imploda.
Wink, denunciando o Mito da Violência Redentora[4] — a mentira de que o sangue pode purificar, de que a ordem só é possível através do sacrifício do outro. Efraim escrevia:
"A Cruz não é o local onde Deus é apaziguado, mas o local onde minha própria humanidade é exposta. É o momento em que o mecanismo do bode expiatório é levado ao limite e, por ser a Vítima absolutamente inocente e o próprio Deus encarnado, o sistema inteiro entra em colapso diante dos meus olhos."
Aquelas palavras foram meu fragmento de crise. Elas transpassaram minha alma como um vento frio em noite de deserto.
Passei então aos escritos de Barnabé[5], o mediador. Sua caligrafia era mais tensa, como se cada letra fosse arrancada à força. Ele dialogava com Efraim e, ao mesmo tempo, alertava para um perigo que Efraim talvez não tivesse visto:
"Sinto que muitos dos que caminham comigo estão tentando transformar a desconstrução em um novo sistema de poder. Querem trocar o chicote do Templo pelo chicote da nova consciência. Estão reconstruindo o altar de Esdras com tijolos de culpa progressista ou conservadora, mas o cheiro de medo é o mesmo."
Ele chamava isso de Modelo do Capataz[6] — o oprimido que, ao invés de se libertar, é promovido a opressor e começa a cobrar dos outros a mesma coerência que o sistema exigiu dele.
Eu li e senti o peso da acusação: quantas vezes, na minha própria desconstrução, eu me tornei um capataz de novas certezas?
Barnabé concluía com uma frase que ficou gravada na minha alma:
"O Poder não aceita a Fragilidade porque ela é o único elemento que não entra no contrato. Você não pode tributar um homem que reconhece sua própria falência, nem pode controlar uma alma que descobriu que o deserto é o único lugar onde o Deus-Patrimônio não consegue entrar."
Eu estava sentado na poeira, com as folhas tremendo nas mãos sujas de terra. Se o altar de sangue foi desmascarado como uma invenção humana para gerenciar o pavor — isso eu aprendi com Efraim.
E se a própria desconstrução pode se tornar um novo trono de arrogância — isso me gritou Barnabé.
O que resta para o homem que, ao cair da noite, ainda sente a necessidade visceral de se voltar para o Invisível?
A intertextualidade desses encontros me lançou em um deserto mais profundo: o deserto da linguagem.
Percebi que orar, depois de Efraim e Barnabé, exige a coragem de não dizer nada que não seja absolutamente verdadeiro.
E a fragilidade humana garante que estou longe do absolutamente verdadeiro. Já pensei tantas vezes estar trilhando o caminho certo e estive tantas vezes equivocado.
Se o altar está vazio, a oração precisa aprender a ser nua. Talvez vazia.
Quando o altar é desmontado, a primeira sensação não é de paz, mas de vertigem — parece que além de não existir mais o altar, não se sente mais o chão debaixo dos meus pés.
Efraim nos mostrou que o sacrifício era uma muralha de proteção contra o medo. Sem o sacrifício, estamos expostos.
Se Deus não exige sangue e se a cruz foi o desmascaramento final de nossa violência, a estrutura da oração que aprendi — alguém que pede a quem pode dar — racha sob o peso da realidade.
Passei décadas pedindo intervenções, curas mágicas e proteções seletivas, mas percebi em textos do John Caputo[7] algo bem diferente e que aquieta minha alma tão inquieta.
Mas, se Deus se esvazia (Kenosis[8]) para nos dar liberdade, Ele não é o super agente que suspende a gravidade para nos poupar do tropeço.
Se Ele é o companheiro de viagem que sente a poeira, como posso pedir que Ele remova as pedras do meu caminho sem que Ele mesmo tenha que abandonar a caminhada?
Orar, então, deixa de ser uma transação e passa a ser uma exposição. É a alma se despindo da necessidade de controle para aceitar a dignidade de ser frágil.
A primeira coisa que precisei desaprender foi o pedido. Durante décadas, minha oração começava com "Senhor, eu te peço..." — como se o Eterno fosse um balcão de atendimento celestial.
[Não] Orar pedindo, não é um exercício de abstinência; é reconhecer que o Amor não se move por barganha.
Quando cruzo os braços sobre o peito e não peço nada, estou dizendo: confio que o Mistério já está aqui, mesmo que eu não veja.
Aprendi que o oposto do controle não é o caos, mas a atenção. Controlar é agarrar; atenção é abrir a mão.
Efraim escreveu sobre ficar presente e Barnabé sobre a vulnerabilidade. Juntei as duas pontas e descobri que a oração de simples presença é o ato de habitar o agora sem tentar mudá-lo.
Quando pratico a atenção, me sento na poeira do caminho e apenas respiro. Sinto o ar entrando e saindo — esse sopro que não me pertence, mas que me sustenta.
Não peço nada. Não espero resposta. Apenas estou diante do Mistério. É a postura do gato que se senta ao lado de quem sofre: ele não resolve a dor, ele apenas a testemunha.
Nesse estar diante, algo se alinha. Não é que o mundo mude, mas eu deixo de lutar contra ele.
A atenção é a oração de quem descobriu que o presente é o único santuário que o Poder não consegue tributar.
Cresci ouvindo que diante de qualquer situação, em tudo dai graças. Mas há dores que tornam a gratidão uma mentira.
[Não] Orar agradecendo diante da dor, não é ingratidão — é recusar-se a vestir o horror com roupas de domingo.
O grito de lamento é mais honesto que um obrigado que não sai do fundo do peito. Jó não agradeceu enquanto perdia tudo; ele rasgou as vestes. E isso também foi oração.
Esses são os dias em que o silêncio não basta. Há dias em que a morte fala alto demais. Efraim mencionou suas perdas e Barnabé a dor dos que são sacrificados pelo sistema.
Nesses momentos, a oração precisa ser um grito. O lamento não é uma falta de fé; é a forma mais alta de honestidade.
Quando grito isso não está certo, estou recusando a conformação. O lamento é a oração que faz justiça à dor. Deus não quer o nosso amém para a injustiça.
Ele canonizou o grito de Jó e o grito abandonado de Jesus na cruz. Me lembro de Walter Brueggemann[9] e Elie Wiesel[10] que conseguiram expressar o lamento como resistência.
Orar como lamento é manter viva a revolta contra a morte, mesmo sabendo que o grito não trará ninguém de volta.
O lamento nos mantém humanos em um mundo que quer nos transformar em funcionários da indiferença.
Barnabé escreveu que a vulnerabilidade compartilhada é diferente da vulnerabilidade solitária.
Descobri que a oração mais verdadeira não acontece quando estou de joelhos sozinho, mas quando escuto a dor do outro sem tentar resolvê-la.
Há uma forma de oração que não é dita a Deus, mas na presença do Eterno.
Quando coloco a mão no ombro de um companheiro de estrada e digo estou aqui, o sagrado acontece no entre-nós.
O Amor Eterno não é um espectador que abençoa o encontro; Ele é o próprio encontro.
A companhia é a oração encarnada.
Se o altar está vazio, o rosto do meu irmão torna-se o lugar da presença.
Há, porém, um estágio onde nem a atenção nem o lamento nem a companhia alcançam. É o silêncio absoluto. É o silêncio do Absoluto.
Não é um silêncio de paz, mas o silêncio daquele que está absolutamente esgotado.
Efraim perguntou se o silêncio quando a dor é crua também é oração. Sim, é uma oração.
O silentium mysticum[11] é o reconhecimento de que não há palavras para o que se vive. É o silêncio de Jó durante sete dias.
É aceitar que o Mistério habita o vácuo. Às vezes, orar é apenas se calar e deixar que o vazio nos atravesse. O vazio que se adensa.
Não há fracasso nisso. O deserto às vezes não tem água, e não adianta cavar; é preciso esperar a noite cair para sorver o orvalho.
Este é o ponto onde me afasto dos manuais e abraço a sombra.
Aprendi com Efraim e Barnabé que a dúvida não é inimiga da oração, mas sua matéria-prima. Orar com dúvida não é orar mal; é orar com honestidade radical.
Dizer não sei se existes, não sei se me ouves, mas estendo as mãos é o ato de fé mais puro que conheço.
É a coragem de continuar a busca mesmo quando o mapa foi queimado. É tatear um caminho desconhecido.
A dúvida dá textura à oração. Ela impede que nos tornemos os Capatazes de Barnabé, cheios de certezas inquisidoras e métodos infalíveis.
A dúvida é o que mantém a mochila leve, pois ela nos impede de carregar ídolos de pedra disfarçados de verdades, de certezas, de garantias.
Meus caros Efraim e Barnabé,
Escrevo-lhes sob a luz de uma fogueira que já se apaga, enquanto a poeira da estrada parece ter se tornado parte da minha própria pele.
Li seus ensaios e senti que vocês desenharam a planta baixa da minha própria angústia.
Efraim, você desmontou o altar do sacrifício e me deixou com o vazio, além de desmascarar o Mecanismo Político-Religioso que silenciosamente nos arregimenta.
Barnabé, você me alertou que até esse vazio pode virar um novo trono de poder se eu não tomar cuidado.
Com vocês, aprendi a [não] orar. Aprendi que a oração de petição, aquela que busca favores de um Deus-César, morreu junto com o altar destruído e o sangue fruto da violência.
Mas aprendi também que abandonar toda oração seria uma forma de preguiça espiritual, um medo de encarar o Mistério sem as muletas do dogma e das certezas.
Passei a orar como quem não ora.
Minha oração agora é o gesto de quem se senta na areia e olha para o céu sem exigir respostas.
É a atenção ao sopro que não sei de onde vem, o grito de lamento que brota diante da dor, o silêncio de estar-junto percebendo a dor do outro, o silêncio diante do Silêncio e a dúvida que garante que eu não me torne um Capataz.
Se nos encontrarmos na estrada, vocês verão um Joel que não tem mais certezas para oferecer, apenas uma concha vazia e a disposição de caminhar ao lado de vocês.
Não deixem que reconstruam os altares do medo. Continuem nos lembrando de que o sagrado não mora no que é sólido e imponente, mas no que é quebrado e vulnerável.
Minha mochila está mais leve hoje, meus amigos. Não carrego mais as leis dos homens, apenas a esperança de que o Amor Eterno nos encontre em alguns dos nossos passos nessa caminhada incerta.
Com afeto e muita poeira, Joel.
* * *
Joel para de escrever e observa o horizonte, onde a primeira luz da manhã começa a tingir o deserto de ocre.
Ele não está diante de uma mesa, mas diante da imensidão do caminho. Ele sente o cansaço nos ossos e a paz no coração. Ele não busca mais a segurança das estruturas que um dia tentou sintonizar.
Ele sabe que o Poder pode ter as chaves das cidades e dos templos, mas a Fragilidade tem as chaves de um coração habitado pelo Eterno.
Ele ajusta as alças da mochila, respira o ar seco da manhã e retoma o passo. Ele é apenas um homem, um peregrino que descobriu que ser frágil é a única forma de ser verdadeiramente livre.
Ele segue, não porque sabe para onde vai, mas porque sabe que a oração não é o destino, é o próprio caminhar.
* * *
Notas de Rodapé:
[1] A Fragilidade Humana resgatada pelo Amor Eterno: ensaio de Efraim refletindo sobre a desconstrução da necessidade do pagamento sacrificial para aplacar a ira de um Deus irado.
[2] O Sangue que desmascarou o Mecanismo Político-Religioso: ensaio de Efraim refletindo sobre a desconstrução dos acordos entre o Palácio e a Igreja pelo Sangue de Jesus Cristo assassinado por ser Frágil.
[3] GIRARD, René. O Bode Expiatório. Tradução de Ivo Storniolo. São Paulo: Paulus, 2004. 280 p. Original francês: Le Bouc émissaire, Paris: Grasset, 1982. Nesta obra central de sua teoria mimética, ele demonstra como as sociedades humanas, para conter a violência interna que ameaça desintegrá-las, elegem uma vítima inocente sobre a qual canalizam sua agressividade coletiva. A morte dessa vítima — o "bode expiatório" — produz uma paz temporária e ilusória, que é então interpretada como sanção divina, sacralizando o próprio mecanismo violento.
[4] WINK, Walter. Engaging the Powers: Discernment and Resistance in a World of Domination. Minneapolis: Fortress Press, 1992. Cap. 1: "The Myth of Redemptive Violence". Publicado originalmente como artigo em: Christianity and Crisis, v. 44, n. 12, p. 282-286, 1984. Wink define o conceito de "Mito da Violência Redentora" para descrever a narrativa mais antiga que se espalhou pela civilização: a crença de que a violência pode salvar, purificar e trazer ordem. Ele demonstra como esse mito sustenta os sistemas políticos e religiosos de dominação, fazendo com que o sangue derramado seja visto como necessário e redentor.
[5] O Poder não Aceita a Fragilidade: ensaio de Barnabé refletindo sobre a impossibilidade do Poder aceitar a Fragilidade Humana.
[6] Sistema de Crenças e Incentivos perversos, o Capataz não é visto como um algoz e a condição de oprimido, frágil precisa ser rompido – e, há o incentivo de se tornar um Capataz.
[7] John D. Caputo (n. 1940), filósofo estadunidense, professor emérito das Universidades de Syracuse e Villanova e figura central na filosofia da religião continental. Em sua obra The Weakness of God: A Theology of the Event (2006), desenvolve a "teologia do acontecimento" e a "teologia fraca", propondo que Deus não se apresenta como um ser soberano e onipotente, mas como um "acontecimento" (event) — uma força débil, um chamado, uma promessa que "insiste" no nome de Deus sem se deixar aprisionar por ele . A força de Deus, nessa perspectiva, não é a de um agente que intervém no mundo, mas a de um convite à transformação, uma "poética do impossível" que rompe com a lógica do poder e abre espaço para o novo e o inesperado. Como ele mesmo escreve, a teologia do acontecimento implica "uma poética do impossível que torna, por sua impossibilidade, o reino de Deus como possível", movimento que ressoa com a experiência descrita no texto: o desmonte do altar como altar da onipotência divina, que cede espaço a uma oração que não pede a remoção das pedras do caminho, mas aceita a caminhada como exposição à fragilidade.
[8] O termo kenosis (do grego kenōsis, "esvaziamento") tem sua origem no texto bíblico de Filipenses 2:7, onde se afirma que Cristo, "sendo de condição divina, não se apegou ao ser igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a condição de servo". A tradição teológica, desde os Padres da Igreja até autores contemporâneos, vê nesse ato de despojamento a revelação máxima de um Deus que, ao invés de impor poder, abre espaço para a liberdade humana e a autêntica relação de amor. Desta forma, a kenosis se opõe radicalmente a qualquer "deus" que vigia, cobra coerência ou promove "capatazes", pois ela revela um Deus que não se impõe pelo medo ou pela performance, mas que se autocomunica no caminho da humildade e do serviço, abrindo a possibilidade de um encontro que não é de submissão, mas de consolação mútua.
[9] Walter Brueggemann (1933–2025), proeminente estudioso do Antigo Testamento e teólogo estadunidense, autor de mais de 100 livros e professor emérito no Columbia Theological Seminary. Em sua obra Interrupting Silence: God's Command to Speak Out (2018), Brueggemann distingue o silêncio como "reverência diante da santidade inefável" daquele que é "coerção, onde algumas vozes são silenciadas no interesse de controle pelas vozes dominantes", posicionando-se contra este último e defendendo a interrupção profética do silêncio opressor. Como ele mesmo escreveu, "o silêncio é uma questão complexa. Pode se referir ao temor diante da santidade inefável, mas também pode se referir à coerção onde algumas vozes são silenciadas no interesse de controle pelas vozes dominantes".
[10] Elie Wiesel (1928–2016), escritor, professor e ativista dos direitos humanos, sobrevivente do Holocausto e vencedor do Prêmio Nobel da Paz em 1986. Em sua obra seminal, Night (1958), o silêncio não se apresenta como via contemplativa, mas como ferida — o silêncio de Deus diante do sofrimento e o silêncio como testemunho que, após dez anos de voto de silêncio, emergiu em palavras que "falam" pela ausência. Como ele mesmo afirmou: "Nunca esquecerei aquele silêncio noturno que me privou, para toda a eternidade, do desejo de viver."
[11] Silentium mysticum. Embora comum à tradição cristã, o termo assume significados distintos em três pilares que considerei. Na Patrística (Pseudo-Dionísio, Capadócios), é o silêncio contemplativo e ascensional, ápice da teologia apofática (é dizer o que não é Deus) que abandona conceitos para unir-se a Deus nas "trevas luminosas". Em Lutero, reveste-se de tensão dialética: silêncio reverente diante do Deus absconditus (escondido), mas superado pela Palavra de Cristo como Deus revelatus (revelado). Em Calvino, possui feição epistemológica: limite imposto pela soberania divina, que exige do crente humildade e abstinência de especulações sobre o não revelado, sem caráter de êxtase. Joel prefere o Silêncio que habita o vácuo.
* * *
Existem muitos peregrinos dentro de mim. Joel é um deles, ele carrega em seu nome a certeza que o Eterno é Deus, o mesmo que o confrontou em suas crenças através das leituras dos fragmentos de Efraim e Barnabé, que o deixaram sem saída e ele percebeu as desconstruções de suas crenças acontecerem e no lugar arrasado, a paz e a presença brotaram, garantindo companhia pelo caminho até se perder no horizonte.
Arnoldo Mendonça – 26 de abril de 2026
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