Ensaio sobre o que acontece depois que Silas[1], o pacificador decepcionado ao descobrir que a paz que aprendeu a construir não passa de um armistício bem redigido.
A praça ficou para trás, mas o adesivo no poste ainda arde na memória. Silas caminha — não porque saiba para onde vai, mas porque parar, depois do que viu, seria insuportável.
A estrada sob os pés é poeirenta, incerta, e cada passo exige que ele abra mão de alguma certeza que carregava desde que aprendeu a negociar a paz dos outros.
Ele descobre, agora, que desmontar um altar dentro de si é mais demorado do que denunciar o altar alheio.
A Catedral e o Palácio continuam abraçados — isso ele já não pode desfazer.
Mas há um templo dentro dele que também precisa ser esvaziado. E o silêncio que encontrará ali talvez seja o único lugar onde o Amor Eterno caiba sem precisar competir com ídolos.
Encontrei este segundo texto de Silas dentro do mesmo envelope pardo — agora mais amassado, as bordas bem surradas de tanto serem manuseadas.
Diferente do primeiro, que tinha a urgência de quem acabara de cair do cavalo, este traz marcas de releitura. Há parágrafos sublinhados a lápis, anotações nas margens, setas que ligam uma ideia a outra.
Silas já não está na praça. Deixou-a para trás — não sem antes carregar nos olhos a imagem do adesivo colado no poste e o Abraço Cinzento e Amargo[2] entre a Catedral e o Palácio.
Agora caminha. Não sabe exatamente para onde. Sabe que o movimento é necessário porque parado ele não consegue mais ficar.
Na mochila, além dos escritos de Barnabé, ele carrega uma pergunta que não o larga: o que faz um pacificador quando descobre que a paz que aprendeu a construir é a moeda que mantém o sistema de pé?
Este ensaio é o registro dessa travessia. Não a do impacto — essa ficou no primeiro texto. Mas a do ressignificado. Esta é a travessia do momento em que Silas, já em movimento, começa a desmontar dentro de si o altar que aprendeu a servir.
Este segundo envelope chegou até mim mais surrado que o primeiro. Como se Silas já o tivesse aberto e fechado muitas vezes antes de decidir que era hora de entregá-lo a outro peregrino.
Há nele a lucidez de quem viu algo — mas há também, nas bordas de alguns parágrafos, o vestígio de uma hesitação que o primeiro texto não tinha. Como se Silas estivesse prevendo que a paz do altar vazio seria provada mais tarde — num silêncio que talvez não falasse.
Silas é um homem que passou a vida sendo pago para sentar-se à mesa com aqueles que se odiavam.
Diplomata de carreira, seu ofício era o de construir linguagens que dois lados inconciliáveis pudessem assinar sem perder completamente a face.
Aprendeu que a paz internacional não se faz com justiça — faz-se com equilíbrio de forças. Aprendeu que o melhor acordo não é o que resolve o conflito, mas o que o adia até que ninguém se lembre mais do que o causou.
Mas a estrada agora lhe ensina o que os manuais de negociação nunca disseram: que há conflitos que não se resolvem — desatam-se.
E desatar é diferente de resolver. Resolver é encontrar um termo comum. Desatar é reconhecer que não há termo comum possível e que o abraço entre a Catedral e o Palácio jamais será desfeito por uma cláusula bem colocada.
Silas caminha. O sol da tarde já não aperta como antes, mas a poeira ainda sobe a cada passo e se acomoda nas dobras da roupa.
Ele sente o cansaço nas pernas — um cansaço bom, diferente do cansaço das salas de negociação, que era sempre um cansaço de contenção, de mandíbula cerrada. Este é um cansaço de quem está se movendo, de quem está deixando algo para trás.
A mochila continua pesada. Mas o peso mudou de natureza.
Antes, a mochila pesava porque ele havia descoberto o mecanismo[3] — o choque de ver o conluio entre a Catedral e o Palácio funcionando em plena luz do dia, ali na praça, diante dos seus olhos.
Agora, o peso é outro. Agora pesa a tarefa que se segue: desaprender.
Desaprender que o abraço cinzento entre a Catedral e o Palácio não será desembaraçado — eles não se soltarão por decreto, por tratado ou por mediação. Desmontar dentro de si tudo o que aprendeu a servir sem saber.
Desaprender a lógica do Deus feudal que ele serviu sem saber. Desaprender a certeza de que a paz se faz com concessões ao poder. Desaprender a habilidade mais refinada do diplomata: a de embelezar o inaceitável com palavras bonitas.
Ele não sabe ainda como se faz isso. Mas sabe que começar é o único jeito de chegar a algum lugar.
* * *
Encontrei uma pedra à beira do caminho, onde o asfalto cede lugar à terra batida, e me sentei. Abri a mochila. Os papéis de Barnabé[4] estavam ali, agora marcados pelas dobras de quem os leu mais de uma vez — e, sim, eu os havia lido mais de uma vez. Não conseguia parar.
Dessa vez, porém, não foi o choque do adesivo e das faixas que me atravessou. Foi outra coisa. Foi a compreensão lenta, quase orgânica, de que o texto de Barnabé[5] não era apenas uma denúncia — era um mapa.
Ele escrevia sobre um mecanismo antigo, anterior a Anselmo, anterior a Esdras. Um mecanismo em que uma comunidade, para manter sua coesão, precisa encontrar uma vítima. Alguém sobre quem jogar o peso da desordem. Alguém que, ao ser expulso ou morto, restaure a paz falsa do grupo.
Ele chamava isso de mecanismo do bode expiatório. E dizia que a cruz de Jesus não era um pagamento a um Deus ofendido, mas o desmascaramento desse mecanismo.
Jesus não morreu porque Deus exigia sangue. Morreu porque o mecanismo político-religioso — o mesmo que eu vi abraçado na praça — não suporta a fragilidade que denuncia a sua violência.
Ergui os olhos do papel.
A frase veio sem aviso, como se tivesse estado sempre ali, esperando o momento certo para ser dita:
"O Deus que habita na fragilidade não mora nos palácios."
Não estava no texto de Barnabé. Mas poderia estar. Talvez tivesse nascido do encontro entre as palavras do peregrino e a minha experiência de diplomata. Talvez tivesse surgido agora, dentro de mim, como uma semente que finalmente encontra terra.
Guardei os papéis. Respirei fundo. O ar da estrada era diferente do ar da praça — menos rarefeito, mais vivo. Ainda não era puro, mas já dava para encher os pulmões sem sentir o gosto amargo do "Deus, Pátria e Família".
Comecei a andar de novo. E, enquanto caminhava, as duas imagens de Deus se alternavam na minha mente como duas faces de uma mesma moeda quebrada.
De um lado, o Deus Feudal — o Deus de Anselmo, o Deus cuja honra infinita foi ofendida e exige satisfação. Esse Deus é um grande senhor de terras, sentado num trono distante, que só se apazigua quando recebe o pagamento devido.
Nesse modelo, a fé é um contrato: você deve, alguém paga, e o sistema decide quem está quite e quem ainda está em dívida.
Do outro lado, o Deus Frágil — o Deus que Jesus revela nos evangelhos.
Um Deus que não exige pagamento, que lava os pés dos discípulos, que se deixa prender sem resistência, que morre como um criminoso comum sem convocar legiões de anjos para salvá-lo.
Um Deus que não negocia com o poder porque o poder não é a sua linguagem.
Eu sempre servi ao primeiro. Acreditei que a paz era uma dívida a ser paga, que cada concessão aproximava da quitação, que o equilíbrio era uma questão de encontrar o preço certo.
Foi essa teologia — que eu nunca nomeei como teologia — que me levou a sentar-me em mesas onde o nome de Deus era usado para justificar o que a justiça condenaria.
O Deus Frágil, só agora eu começo a perceber — o Deus que Jürgen Moltmann[6] viu agonizar com as vítimas, que Dietrich Bonhoeffer[7] encontrou numa cela de prisão, que Leonardo Boff[8] contrapôs ao ídolo que justifica hierarquias.
E o que vejo me desconcerta: esse Deus não exige nada. Não porque seja indiferente, mas porque o Amor, quando é verdadeiro, não precisa cobrar.
É um Deus que não faz acordos com o poder. E isso é desestabilizador para quem passou a vida fazendo acordos com o poder em nome da paz.
Parei de andar. Lembrei-me de um texto que li inúmeras vezes, mas que nunca me atingira como agora.
"Tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era estrangeiro, e me acolhestes; estava nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; preso, e fostes ver-me."[9]
Eu sabia de cor. Mas nunca tinha entendido o verdadeiro escândalo dessas palavras. Um escândalo que desmascara O Abraço Cinzento e Amargo entre o Palácio e a Catedral.
O escândalo não é que Jesus se identifique com o sofredor. O escândalo é que o critério final de juízo é a fragilidade. A fome. A sede. O desterro. A nudez. A doença. A prisão.
O escândalo que deixa claro a inversão de valores. Não a ortodoxia. Não a filiação religiosa correta. Não o número de votos recebidos. Não a defesa dos "valores da família" — juramento que Pierre Bourdieu[10] desmontou como categoria de Estado, que Michel Foucault[11] descreveu como dispositivo de aliança, e que Maria Rita Kehl[12] escavou até o luto melancólico por uma família que nunca existiu."
O mecanismo político-religioso que vi na praça não sobrevive a esse escândalo. O marginalizado não conta. Não tem influência. Não pode retribuir a benesse. Não devolve o favor com lealdade política.
O marginalizado é pura fragilidade. É pura necessidade. É pura humanidade exposta, sem nada a oferecer em troca.
E é ali — nessa fragilidade que nada oferece — que o Deus de Jesus habita, sequer cumprimenta o Palácio ou a Catedral. Ao acolher a fragilidade dá de ombros ao abraço cinzento dos hipócritas, homens de bem.
Não nos palácios. Não nas catedrais abraçadas com o poder. Não nos gabinetes climatizados onde se redigem acordos que embelezam a opressão.
No corpo do faminto. No silêncio do estrangeiro. Na solidão do preso.
Senti um arrepio. Durante anos, negociei acordos que ignoravam o marginalizado. Não por maldade — por cegueira estrutural. Estava tão ocupado em construir pontes entre os poderosos que esqueci de perguntar se a ponte levava a algum lugar onde o marginalizado teria uma esperança.
Não imaginava por onde as reflexões a partir do texto de Barnabé me levariam. Não imaginava o que seria o véu sendo rasgado à minha frente escancarando a hipocrisia que fez parte da minha caminhada pensando que era a maior e melhor das realidades.
E então apareceu na minha alma a imagem mais dura de todas. Barnabé a tinha mencionado de passagem, quase como um provérbio. Mas eu a carreguei da praça para a estrada e ela não me larga mais:
O rato que virou gato esqueceu que já foi rato.
O sistema político-religioso não precisa de exércitos para se perpetuar. Ele faz algo mais eficiente: ele transforma os oprimidos em opressores — o movimento que Paulo Freire[13] chamou de aderência ao opressor, que Frantz Fanon[14] viu no colonizado que internaliza o colonizador, e que Hannah Arendt[15] reconheceu no burocrata que deixou de pensar."
Dá ao rato um pouco de poder — um cargo, um título, um púlpito, um diploma de vereador — e o convence de que agora ele é gato. "Você está do lado certo", sussurra. "Deus está com você, como sempre está ao lado dos homens de bem."
E o rato, agora gato, começa a morder os mais lentos. Os que duvidam. Os que perguntam demais. Os que ainda não aprenderam a virar gato.
Reconheço esse movimento.
Já vi acontecer em mesas de negociação, onde ex-ativistas se tornavam burocratas e passavam a justificar o sistema que antes combatiam.
Já vi em colegas que começaram como idealistas e terminaram como engrenagens de uma máquina que sabiam ser injusta, mas que lhes dava status, salário e senso de propósito.
A pergunta que Barnabé deixou no ar era simples e devastadora:
"Como saber que não nos tornamos ratos encantados pelo flautista da desconstrução?"
Não tenho resposta. Mas tenho uma pista.
O rato que vira gato esquece. Esquece de onde veio.
Esquece o que sentiu quando era pequeno e vulnerável. Esquece que o altar dentro de si está vazio e que esse vazio não é ausência — é o único espaço onde o Amor Eterno pode habitar sem competir com ídolos.
O peregrino que mantém a fragilidade se lembra. Se lembra de que já foi faminto, nu, preso — não literalmente, talvez, mas espiritualmente. Lembra-se de que a estrada é feita do mesmo pó em que se transformará um dia.
Memória, então. A fragilidade é a memória de que fui rato. E essa memória é a única coisa que me impede de morder o próximo peregrino que encontrar pelo caminho[16].
Sentei-me à beira da estrada. Não por cansaço físico — por cansaço do peso das descobertas que se acumulam.
Percebi algo que jamais havia considerado: a dúvida não é o inimigo da fé. É o seu sistema circulatório.
Durante anos, acreditei que a fé era certeza. Que crer era não vacilar. Que o homem espiritual era aquele que tinha todas as respostas na ponta da língua.
Foi essa teologia da certeza — a mesma que Paul Tillich[17] denunciou como idolatria, que Søren Kierkegaard[18] chamou de obstáculo à fé, que Jacques Ellul[19] desmontou como religião sociológica — que formou os candidatos que vi na praça, os que usam versículos como cabides — porque a certeza é a matéria-prima do cabide.
Você só pendura alguém num versículo quando tem certeza absoluta de que está certo.
Jacques Ellul dedicou a vida a desmontar os mecanismos da propaganda, mostrou que a certeza não é um acidente — é o combustível indispensável de todo sistema de integração.
O ser humano certo de si, certo de Deus, certo do inimigo, é o ser humano que o sistema pode usar. Ele não pergunta. Não hesita. Não duvida.
A propaganda, para Ellul, não precisa convencer quem já está certo — precisa apenas canalizar essa certeza para o alvo certo.
E nã há alvo melhor do que um versículo recortado, colado ao lado de um número de candidato?
Ellul viu com clareza o que eu só começo a enxergar agora: que a fé, quando reduzida a certeza, deixa de ser fé para se tornar instrumento.
A fé verdadeira é desconfortável para o sistema. Ela não pode ser usada como cabide porque ela mesma não se pendura em lugar nenhum. Ela caminha. Ela tem dúvidas. Ela flutua como um veleiro em alto mar.
A certeza, não. A certeza fica. A certeza elege. A certeza mata.
Mas a estrada está me ensinando outra coisa.
A dúvida honesta — aquela que nasce do choque entre o que nos ensinaram e o que a vida real revela — não enfraquece a fé. Ela a purifica. Richard Holloway[20] a chamou de forma madura da fé; Rubem Alves[21], a chamou de respiração. Ela queima o que é falso e deixa o que resiste ao fogo.
O mecanismo político-religioso odeia a dúvida. Porque a dúvida pergunta, e esse mecanismo só sobrevive com respostas prontas. A dúvida desmonta cabides. A dúvida desarma o discurso de quem usa Deus como carimbo.
Se a praça me asfixiou, foi porque eu estava respirando certezas. Mesmo sem querer, eu fazia parte desse mecanismo. A estrada me ensina a respirar perguntas. E o ar, aqui, é menos rarefeito.
Não abandonei a fé. Abandonei a fé que não tem dúvidas — aquela que vem pronta, embalada, com versículo e número de candidato.
O que resta agora é uma fé[22] que pulsa, que dói, que não se deixa domesticar por slogan algum. E essa fé, descubro, é a única que vale a pena carregar na mochila.
Sentei numa pedra para descansar os pés. Tirei as botas. Os calos nos dedos não são metáfora — são carne que reagiu à promessa de conforto que o asfalto nunca cumpriu.
E pensei: a fragilidade de que tenho falado até agora ainda é conceito, insight, teologia. Mas ela mora aqui — nesta bolha no dedo mínimo, nesta lombalgia que não passa com alongamento, neste corpo que um dia será pó na beira desta mesma estrada.
Se o Deus que habita na fragilidade não habita também nesta carne que dói, então tudo o que escrevi até agora é só uma ideia bonita.
Se habita, então Ele está mais perto do que imaginei — porque não há altar mais vazio do que um corpo que já não pode fingir que é eterno.
Retomei a caminhada. O sol já não estava mais no alto; a tarde começava a ceder para o entardecer. As sombras se alongavam na estrada.
E, caminhando, cheguei à pergunta que vinha evitando desde que deixei a praça:
O que resta quando o altar está vazio?
Durante anos, acreditei que o altar precisava estar cheio. Cheio de doutrina. Cheio de atividade. Cheio de causas. Cheio de acordos assinados e pontes construídas. O altar vazio era sinal de fracasso, de abandono, de fé morta.
Mas a estrada me mostrou outra coisa.
O altar vazio não é ausência. É espaço — o espaço que Pseudo-Dionísio[23] percorreu pela via negativa, que Mestre Eckhart[24] buscou no desprendimento, que São João da Cruz[25] atravessou como noite escura, que Thomas Merton[26] encontrou no desmonte do falso eu. Espaço para o Amor Eterno habitar sem competir com ídolos.
Espaço para a fragilidade não precisar se defender. Espaço para a dúvida pulsar sem ser esmagada pela certeza.
Espaço para o outro — o faminto, o preso, o estrangeiro, o marginalizado — ocupar o centro sem ser deslocado pelas nossas liturgias ensaiadas.
O mecanismo constrói altares cheios. Cheios de objetos, de regras, de hierarquias, de moedas. O altar cheio é o altar do Templo abraçado com o Palácio — ambos cheios de si, ambos cheios de poder, ambos vazios de Amor.
O altar vazio é o altar do peregrino que descobriu que não precisa oferecer nada além de presença. Presença atenta. Presença frágil. Presença que não negocia com o poder porque já não precisa de nada que o poder possa dar.
A minha adoração, a partir de agora, é não oferecer mais nada. Apenas estar. Apenas caminhar. Apenas lembrar que fui rato. Apenas abrir espaço para que o Amor Eterno ocupe o que eu insisti em encher de certezas.
O altar dentro de mim está vazio.[27]
E essa é, finalmente, a minha paz.
* * *
Caro Barnabé,
Se a primeira carta que lhe escrevi (ainda sob o impacto da praça, do adesivo e do abraço cinzento) era o grito de quem acabava de cair do cavalo, esta segunda é o fôlego de quem já está de pé — e caminhando.
Li seus escritos de novo. Não uma vez, mas várias. E cada leitura me revelou uma camada que não tinha visto antes.
A primeira foi o choque do reconhecimento: o sistema estava ali, nu, funcionando em plena luz do dia.
A segunda foi o mapa: o mecanismo do bode expiatório, a cruz como desmascaramento, o Deus Feudal que projetamos no céu para justificar as nossas hierarquias na terra.
A terceira foi o espelho: vi meu próprio rosto refletido no sistema que denunciava.
Passei a vida construindo pontes entre os poderosos. Acreditava que a paz era uma equação que se resolvia com paciência, inteligência e boa vontade.
Eu estava equivocado, você me mostrou que a equação estava errada. A paz verdadeira não se constrói com concessões ao poder. Ela se constrói com desapego do poder. E desapegar é infinitamente mais difícil do que negociar.
Amigo Barnabé, você perguntou, em algum lugar do seu texto, como saber se não nos tornamos ratos encantados pelo flautista[28] da desconstrução.
Passei dias com essa pergunta atravessada na garganta. Não tenho resposta. Mas tenho uma pista: a memória. O rato que vira gato esquece.
O peregrino que mantém a fragilidade se lembra. Se lembra de que já foi pequeno. Se lembra de que o altar dentro de si é vazio — e que esse vazio não é derrota, mas o único espaço onde o Amor Eterno cabe sem precisar competir com ídolos.
Estou aprendendo a desaprender, Barnabé. Estou desmontando dentro de mim o altar que construí sem perceber. E dói. Dói como uma articulação que fica muito tempo imóvel e começa a ser movida de novo.
Mas o ar aqui na estrada é menos rarefeito que o da praça. Ainda não é puro — mas já posso respirar sem sentir o gosto amargo do "Deus, Pátria e Família".
Continue escrevendo, Barnabé. Suas palavras são mapas para os que vêm depois.
Com a certeza de que a dúvida é o que me mantém vivo,
Silas, o rato que está aprendendo a não virar gato.
Silas guarda a carta dentro do envelope pardo. Não sabe se a enviará — talvez a deixe em algum banco de praça, como fizeram com ele, para que outro peregrino a encontre. É assim que eles se comunicam: não por correio, mas por rastros.
Ele se levanta da pedra onde esteve sentado. Ajusta a mochila no ombro. A estrada à frente já não é a mesma que ele percorria quando saiu da praça. Não porque a paisagem tenha mudado, mas porque ele mudou.
O altar dentro de si está vazio. Não um vazio niilista — um vazio que é espaço. Espaço para o Amor Eterno ocupar sem disputa. Espaço para o faminto, o preso, o estrangeiro, o marginalizado entrarem sem pedir licença. Espaço para a dúvida pulsar sem ser abafada pela pressa da certeza.
Silas recomeça a caminhar. Não sabe aonde vai. Não fundará uma nova igreja. Não escreverá um novo credo. Não criará um novo sistema — porque todo sistema, cedo ou tarde, é cooptado pelo abraço cinzento e amargo entre a Catedral e o Palácio.
O que ele fará é continuar a caminhar. Peregrino frágil. Peregrino que duvida. Peregrino que recusa o poder, não porque seja puro, mas porque sabe que o poder corrompe. Peregrino que se lembra de quando era rato — e que, por isso, não quer virar gato.
O sol está se pondo. A estrada se estende à frente, poeirenta e incerta.
Silas caminha.
E, enquanto caminha, repete baixinho as palavras que eram de Barnabé, mas que agora também são suas — porque a estrada as gerou dentro dele:
"O Deus que habita na fragilidade não mora nos palácios."
* * *
Notas de Rodapé:
[1] Silas do latim “Silvanus” — "o que pertence à floresta", aquele que habita onde não há muros. Na tradição bíblica, Silas foi companheiro do apóstolo Paulo, um homem de fronteira que circulava entre mundos, jamais fixo num só palácio. O nome já anunciava o peregrino antes mesmo de ele saber que o era.
[2] O Abraço Cinzento e Amargo: ensaio de Silas refletindo sobre os acordos espúrios entre o Poder (Governo) e a Religião (Igrejas) em ano eleitoral.
[3] O Sangue que Desmascarou o Mecanismo Político-Religioso: ensaio de Efraim refletindo sobre a desconstrução dos acordos entre o Palácio (Governo) e a Igreja pelo Sangue de Jesus Cristo assassinado por ser Frágil, citado por Barnabé.
[4] O O Poder não Aceita a Fragilidade: ensaio de Barnabé refletindo a impossibilidade do Poder aceitar a Fragilidade Humana.
[5] Barnabé não cita, mas o conceito vem de René Girard (O Bode Expiatório, A Coisa Oculta desde a Fundação do Mundo): toda comunidade, para restaurar sua coesão, fabrica uma vítima sobre quem joga a desordem — e acredita que a paz voltou quando ela é expulsa ou morta.
[6] Moltmann, O Deus Crucificado: a cruz não é pagamento a um Deus ofendido, mas a revelação de um Deus que sofre com as vítimas.
[7] Bonhoeffer, Resistência e Submissão: "só um Deus sofredor pode ajudar" — escrito da prisão, enquanto a Catedral e o Palácio do seu tempo abençoavam o horror.
[8] Boff, Igreja: Carisma e Poder: o Deus feudal foi usado para justificar hierarquias opressoras; o Deus de Jesus está do lado dos frágeis.
[9] Texto bíblico em Mateus 25.
[10] Bourdieu, Razões Práticas: a família tradicional não é natural — é categoria de Estado, construção histórica que o poder naturaliza para manter hierarquias e heranças.
[11] Foucault, História da Sexualidade I: a "defesa da família" opera como dispositivo de aliança — controle sobre corpos, herança e obediência.
[12] Kehl, A Mínima Diferença: o conservadorismo brasileiro defende um ideal imaginário de família para não ver a solidão e a violência reais dentro de casa.
[13] Freire, Pedagogia do Oprimido: o oprimido "hospeda o opressor dentro de si" — ao subir um degrau, reproduz a violência que sofreu.
[14] Fanon, Pele Negra, Máscaras Brancas: o colonizado internaliza o colonizador e torna-se seu próprio carcereiro.
[15] Arendt, Eichmann em Jerusalém: a banalidade do mal é a do comum que deixou de fazer a pergunta "o que estou fazendo aqui?"
[16] A banalidade do mal não é a maldade dos monstros. É a incapacidade dos comuns — dos ratos promovidos a gatos — de fazer uma pergunta simples: "O que estou fazendo aqui?" A memória da própria raticidade, para Silas, é o único antídoto que ele encontrou até agora. Quem se lembra de ter sido rato — quem não esquece o cheiro do lixo, o frio da toca, o medo do bote — talvez nunca morda outro rato. Mas a pergunta que a estrada ainda não respondeu é: quanto tempo a memória resiste quando o poder começa a parecer bom outra vez?
[17] Tillich, Dinâmica da Fé: a fé autêntica inclui a dúvida; certeza absoluta é sinal de que o objeto da fé virou ídolo. Quando a certeza se torna absoluta, o objeto da fé deixou de ser Deus. É um ídolo. Porque só os ídolos podem ser inteiramente conhecidos, inteiramente controlados, inteiramente usados como cabide para pendurar candidaturas.
[18] Kierkegaard, Temor e Tremor: "sem risco, não há fé" — quanto maior a certeza objetiva, menor a fé. Quanto mais certo você está de Deus, menos provável que esteja falando dEle.
[19] Ellul, A Subversão do Cristianismo: a fé reduzida a certeza moral vira religião sociológica — instrumento de integração a serviço do poder. A certeza elege. A certeza mata. A certeza pendura quem ousa pensar diferente. Cria um deus que abençoa guerras, regimes e candidatos, em vez de habitar na fragilidade dos marginalizados.
[20] Holloway, A Dúvida e a Fé: a dúvida não é o oposto da fé — é a sua forma adulta; a fé infantil é certeza.
[21] Alves, O Que é Religião: a fé é corpo aberto que precisa respirar; a dúvida é a respiração.
[22] Richard Holloway, bispo anglicano que passou pela crise da fé, escreveu em A Dúvida e a Fé algo que Silas descobriu na estrada antes de ler qualquer livro: a dúvida não é o oposto da fé. É a sua forma madura. A fé infantil é certeza. A fé adulta é pergunta. Rubem Alves, teólogo brasileiro que trocou a batina pela poesia, definia a fé como corpo aberto — uma estrutura que não se fecha em dogmas porque precisa respirar. A dúvida, para ele, era a respiração da fé. Um corpo fechado não respira. Uma fé sem dúvida sufoca. O mecanismo político-religioso odeia a dúvida porque a dúvida respira — e o mecanismo só sobrevive em câmaras seladas.
[23] Pseudo-Dionísio, Teologia Mística: Deus não cabe em nomes; o caminho é despojar-se de tudo o que se pensa saber.
[24] Mestre Eckhart: o desprendimento é condição para Deus nascer na alma — "o que mais me impede de sentir Deus é o meu próprio conhecimento de Deus".
[25] São João da Cruz, Noite Escura da Alma: a noite não é ausência de Deus, é purificação de tudo o que não é Deus.
[26] Merton, Novas Sementes de Contemplação: o verdadeiro eu só emerge quando o falso eu, dos papéis e certezas, é desmontado.
[27] O Altar Vazio tem uma tradição — uma linhagem de peregrinos que, séculos antes de Silas, já haviam aprendido a esvaziar o templo interior. Pseudo-Dionísio, monge do século V, chamava isso de teologia apofática: Deus não pode ser capturado por nomes ou conceitos. Cada nome que você dá a Deus é uma limitação que impõe a Quem não cabe em palavra alguma. O caminho mais verdadeiro é o despojamento. Mestre Eckhart, no século XIII, pregava o desprendimento como condição para o nascimento de Deus na alma. Disse algo que Silas entenderia sem precisar estudar teologia: "O que mais me impede de sentir Deus é o meu próprio conhecimento de Deus." O Altar cheio de certezas é o maior obstáculo para a Presença. São João da Cruz chamou esse processo de Noite Escura da Alma — não é ausência de Deus, é a purificação de tudo o que não é Deus. Thomas Merton, o trapista americano, escreveu que o verdadeiro eu só emerge quando o falso eu — construído pelo sistema, pelos papéis sociais, pelas certezas que nos deram — é desmontado. O altar vazio de Silas é o espaço onde o verdadeiro eu pode finalmente respirar. Porque quando você não está ocupado segurando seus próprios ídolos, sobra espaço para o outro entrar.
[28] A imagem do flautista remete ao conto do Flautista de Hamelin, que encanta ratos e crianças com sua música e os leva para fora da cidade — para nunca mais voltar. Barnabé alerta que a própria desconstrução — o desmonte das velhas estruturas — pode tornar-se um novo encantamento, um novo flautista que nos leva a lugar nenhum. A desconstrução vira moda, identidade, cabide novo para o mesmo rato que só trocou de discurso.
* * *
Também sofro a angústia na alma ao perceber a abdução de mentes ingênuas e crédulas por políticos e religiosos inescrupulosos que já entenderam como manobrar massas humanas que tem preguiça em aprofundar-se nos temas do cotidiano.
Arnoldo Mendonça – 25 de maio de 2026
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