A Oficina é Minha Capela

Neste ensaio de Cleófas é o testemunho de um homem que aprendeu a ficar.

O barco ainda não flutua — mas a oficina, onde o barco foi sonhado, tornou-se um lugar habitável.

Ele já não luta contra o vazio; começa a descobrir que o vazio não se preenche nem se decora: habita-se.

A madeira na bancada, a plaina, a serragem no chão — tudo isso deixou de ser projeto inacabado para se tornar liturgia.

Cleófas continua sendo o peregrino de Emaús, mas a estrada já não é a mesma. Na primeira caminhada, ele ia para longe — carregando o peso de uma expectativa desfeita.

Agora, ele descobriu algo que o texto de Lucas apenas sugere: que o companheiro de estrada sempre esteve ali, mesmo quando não era reconhecido.

Este ensaio não é sobre reencontrar o que se perdeu. É sobre aprender a habitar o espaço da perda — e descobrir que apontar a proa para leste, mesmo sem zarpar, já é uma forma de travessia.

1. Nota do Curador

Depois do naufrágio, o que resta não é a praia onde se chega — resta apenas o chão onde se decide se ainda vale a pena se levantar.

Os escritos de Cleófas que chegaram até nós vieram aos pedaços. Muitos fragmentos que precisaram ser reorganizados para fazer algum sentido aos que estiverem lendo este ensaio.

Eram páginas escritas a lápis, com marcas de borracha, como se ele próprio duvidasse do que estava dizendo enquanto escrevia. Havia nelas uma honestidade cortante, mas também uma imobilidade: eram o testemunho de quem ainda não conseguia sair do lugar onde caiu.

Não sabemos se encontraremos outros pelo caminho, mas os fragmentos que acabo de organizar chegaram meses depois.

A caligrafia mudara — não para uma letra mais firme, mas para uma mais paciente. Os rabiscos diminuíram. Havia espaço entre as linhas.

Cleófas não escrevia mais com a urgência de quem precisa extravasar, mas com a lentidão de quem está aprendendo a conviver com o que não muda.

Cleófas não encontrou o que perdeu. Não reencontrou a filha, apesar de lhe parecer que um novo encontro aconteceria a qualquer momento. Não reconstruiu aquele sonho naufragado. O que mudou foi a relação com o vazio.

Em seus primeiros escritos, ele ainda lutava contra o buraco — tentava preenchê-lo, emoldurá-lo, domá-lo com palavras.

E, neste ensaio, ele começa a habitar o buraco. A diferença é sutil, mas é tudo. Habitar não é aceitar. Habitar não é superar. Habitar é simplesmente ficar.

É sentar-se no chão do altar[1] vazio, como Joel ensinou, e não tentar reconstruir o altar. É apenas ficar, ficar em silêncio, sem certezas.

Cleófas ainda não sabe se o barco irá ao mar pelas suas mãos ou se esse destino será algo a se descobrir. Mas descobriu algo que a engenharia nunca lhe ensinou: que o gesto de construir, mesmo sem garantia de conclusão, já é uma forma de travessia. O barco não precisa estar pronto para que a oficina seja um lugar sagrado.

O ensaio que segue é essa descoberta — hesitante, provisória e verdadeira.

2. Passos Lentos e Firmes

Cleófas era engenheiro. Passara a vida projetando estruturas que resistem — vigas, pilares, fundações. A engenharia lhe ensinara que toda construção começa com um desenho, termina com uma entrega. O intervalo entre os dois é medido em cronogramas, prazos, custos, especificações e materiais dos mais diversos.

Mas a oficina onde seu veleiro está ancorado sobre os berços não é um canteiro de obras. Não há cronograma. Não há prazos. Não há cliente esperando a entrega. Há apenas um Cleófas que parece estar se reconstruindo.

O que Cleófas descobriu, tateando no escuro, é que há construções que não se medem pela conclusão.

Sua oficina[2] tornou-se seu estaleiro — não porque ele esteja construindo um barco, mas porque ele está aprendendo a ficar no lugar onde o barco foi sonhado.

A madeira empilhada, as ferramentas, os dispositivos, a serragem no chão: isso não é um cronograma. É uma liturgia.

O peregrino aprende que o caminho não é feito apenas de avanço. Há trechos em que a estrada exige parada. Há trechos em que a peregrinação é vertical, não horizontal — não se avança, aprofunda-se.

Cleófas está nesse trecho. Ele não está andando. Está cavando[3]. Ou, mais precisamente, está lixando a mesma peça de madeira todos os dias, não para que ela se torne algo, mas para que suas mãos tenham um lugar de repouso enquanto o resto do corpo ainda dói.

A estrada à sua frente continua empoeirada. O jipe continua estacionado. Mas há uma diferença: ele já não precisa que a estrada o leve a lugar nenhum. A estrada, por si só, já é o lugar.

*  *  *

3. Mergulho Profundo

Flutuar é sobreviver no mar, mergulhar é conhecer o mistério do mar. Nenhum novo texto me atravessou enquanto flutuei. 

Ao mergulhar profundamente na releitura do ensaio de Joel, Aprendendo a [não] Orar, pela terceira vez. Não buscando respostas — já tinha desistido disso. Buscando companhia. Encontrar o Mistério.

E nessa leitura uma frase já sublinhada desde o início finalmente me atingiu, não como informação, mas como ferida que se reconhece:

"Orar é estender as mãos vazias para o nada."

Eu tinha lido essa frase quando o ensaio de Joel me atravessou e rabisquei um ensaio. Citei essa frase na carta escrita a Joel. Achava que tinha entendido. Mas não tinha. Entender é uma operação da cabeça. A frase só me atravessou quando parei de tentar entendê-la e comecei a praticá-la.

Estender as mãos vazias para o nada.

Foi o que fiz, numa tarde qualquer, na oficina. Não havia madeira para lixar. Não havia ferramenta para limpar. Não havia nada para fazer.

Sentei-me no banco, apoiei os cotovelos nos joelhos e estendi as mãos à minha frente — vazias[4]. Não pedi nada. Não esperei nada. Não houve resposta.

Não haver é muitas vezes apenas não perceber.

Mas houve, pela primeira vez, uma espécie de quietude que não era desistência. Era presença. Credulidades e Incredulidades, Certezas e Incertezas… Dúvidas[5], mas senti Presença.

Joel escreveu cinco modos de [não] orar: atenção, lamento, companhia, silêncio, dúvida. 

Percebi sua forma de orar, não parecendo uma oração. Percebi que ele não disse — talvez porque não pudesse dizer por mim — é que cada modo exige uma rendição diferente. 

Rendição diante do Mistério parece ser a oração que brota da fragilidade, da aparência do fracasso.

A atenção exige render a distração.

O lamento exige render a compostura.

A companhia exige render o isolamento.

O silêncio exige render a palavra.

A dúvida exige render a certeza.

Eu, que passei a vida rendendo projetos, nunca tinha aprendido a render nada de mim mesmo. Não diante de uma [in]certa Presença.

Nesse novo encontro com Joel, ele me mostrou o que me esperava: não uma resposta, mas um "modo de estar"[6] na pergunta.

4. Caminhando Novamente

4.1 Cinco Modos de [Não] Navegar

Joel me ensinou cinco modos de [não] orar. Mas aprendi que, para um engenheiro, a tradução desses modos exige uma rendição que Joel, em sua sabedoria mística, talvez não tenha precisado nomear. Onde ele via Atenção, eu precisei encontrar a Aceitação.

Não porque Joel estivesse errado, mas porque a minha carne precisava de uma tradução mais lenta — uma que passasse pelas mãos antes de chegar ao coração.

Enquanto Joel prestava atenção ao rastro de Deus no mundo, eu precisei aceitar o rastro da ausência na minha oficina. 

Atenção é um movimento da mente que vigia; aceitação é um movimento do corpo que desiste de vigiar para começar a habitar.

Aprendi, com ele, com a madeira, com a Ausência e com a Presença, cinco modos de [não] navegar:

[Não] Navegar como Aceitação. O barco inacabado descansa sob o teto do estaleiro sobre berços bem estruturados. Olho para tudo o que precisa ser construído — o mastro por erguer, o convés por terminar, a mobília por estruturar — e, pela primeira vez na vida, não sinto a urgência desesperada de ajustar tudo às pressas.

Não preciso de cronogramas e de seguir sequências ordenadas corretamente. Parece que estar faz mais sentido do que seguir.

Aceito o casco inacabado. Aceito que o horizonte distante não tem nada a me dizer hoje. O estaleiro não é o meu fracasso; é o meu santuário de repouso. Antes, eu via a obra inacabada como acusação. Agora, vejo como permissão.

[Não] Navegar como Lamento[7]. Sinto falta do vento batendo no meu rosto e do balanço da água na proa. Sinto falta da sua presença na proa com seu sorriso cativante.

Quando as pessoas passam por mim e oferecem consolações[8] fáceis — dizendo que "tudo vai passar" ou que "Deus logo enviará uma tempestade de bênçãos" —, eu as recuso, é o meu lamento.

Prefiro a dor honesta ao gesso barato da ilusão. Choro a ausência do mar. Choro o silêncio das velas. Meu lamento não é falta de fé; é a minha única forma de dizer ao Eterno que o vazio dói. Joel entendeu isso. Ele não tentou embelezar o lamento. Ele apenas o nomeou.

[Não] Navegar como Companhia. Olho para os lados e percebo que a praia está cheia de barcos ancorados e homens cansados. Não nos aproximamos para dar lições de náutica ou para tentar consertar o barco uns dos outros. Nós apenas dividimos o peso de peças pesadas, compartilhamos o calor de uma fogueira e nos sentamos juntos.

Barnabé apareceu numa dessas tardes. Não disse nada. Pegou uma lixa e começou a lixar uma peça ao meu lado. Ficamos assim, em silêncio, por duas horas. Quando foi embora, a peça estava lisa — e eu, pela primeira vez em meses, não me senti sozinho na oficina.

Descobri que a comunhão não se faz na força de navegarmos juntos, mas na beleza de partilharmos nossas fraquezas no chão do estaleiro.

[Não] Navegar como Silêncio[9]. Se me perguntarem por que parei, não saberei responder. E decidi que não vou mais inventar teologias ou explicações bonitas para acalmar a ansiedade dos outros e a minha própria. Escolho o silêncio.

Um silêncio grávido, que não tenta domesticar o mistério. Se não há vento e o mar parece ter secado, apenas permaneço ali, quieto, sem palavras para explicar o inexplicável.

A oficina, no silêncio, não é vazia — é cheia de uma presença que não pede nome.

[Não] Navegar como Dúvida. Ainda seguro o martelo. Caminho ao redor do casco, subo na popa e o contemplo. Continuo lixando as tábuas, ajustando as juntas da madeira no silêncio do estaleiro. Mas se você me perguntar se este casco algum dia flutuará, minha resposta mais honesta será: eu não sei.

E, mesmo assim, eu continuo o trabalho. Lixar, plainar, serrar, colar são movimentos sem garantias; guiados apenas pela incerteza, tornou-se a oração mais pura que consigo oferecer.

Antes, a dúvida me paralisava. Agora, ela me move. Não porque eu tenha respostas, mas porque aprendi que o gesto não depende delas.

4.2 Quando a Oficina está Fechada

Joel, no seu ensaio, escreveu: "Há dias em que nada funciona." Dias sem oração. Dias sem atenção. Dias sem lamento. Dias sem companhia.

Traduzo para a minha linguagem: há dias em que a oficina está fechada.

Joel nomeou cinco modos. Mas há um sexto que ele não nomeou — talvez porque sua alma mística nunca tenha precisado, ou talvez porque nomeá-lo fosse admitir que ele existe. Chamo de [Não] Navegar como Paralisia.

Não é o silêncio. O silêncio ainda é uma escolha — um modo ativo de estar diante do Mistério. A paralisia não é escolha. É o corpo que diz não antes que a mente decida. É o braço que não alcança a plaina. É a perna que não sai da cama. É a mão que não se estende para o nada — porque estender a mão, mesmo para o nada, ainda é um gesto, e a paralisia é a ausência de todo gesto.

Não há rendição na paralisia. A rendição ainda pressupõe alguém que se rende. Na paralisia, não há ninguém.

A madeira espera, mas eu não vou. Não porque não queira. Porque não consigo. A plaina está na bancada. A serra, pendurada. Tudo no lugar onde as deixei da última vez. Mas eu fico na cama olhando para o teto, e a oficina permanece silenciosa do outro lado da casa.

Aprendi que esses dias não são fracasso. Não são recaídas. Não são retrocesso. São o próprio vazio sem disfarce — o vazio que não se veste de significado, não se embrulha em metáfora, não se justifica como parte do processo. Ele simplesmente é. E estar diante dele sem tentar decorá-lo é, talvez, a forma mais difícil de habitação.

Os outros cinco modos me ensinaram a ficar. Este sexto modo me ensina que, às vezes, ficar não é possível — e que isso também é verdade.

O que ainda não sei é imenso, tão imenso quanto o mar.

Não sei se o barco boiará. Não sei se a dor um dia pesará menos. Não sei se estou construindo um memorial ou um disfarce. Não sei se a oficina é capela ou fuga. Não sei se o que chamo de habitar o vazio é, no fundo, apenas uma desistência bem-vestida. 

Não sei, é tudo isso o que sei.

Mas há uma coisa que começo a aprender: não saber[10] não me impede de continuar. A ação não exige clareza. A mão que lixa não precisa saber[11] para onde vai a peça. Ela apenas lixa. E lixar, para um engenheiro que passou a vida exigindo respostas antes de agir, é talvez a maior humildade que a madeira pôde me ensinar.

4.3 A Proa Aponta para Leste

O jipe está estacionado, coberto, aguardando alguns reparos. O barco — que tem o nome que pulsa no meu peito vazio — ainda tem o mastro por erguer, o convés por terminar, a mobília por estruturar. Não sei se um dia verei tudo isso concretizado. Mas aprendi uma coisa que nenhum projeto de engenharia ensina: o horizonte não exige que a gente chegue. Ele exige que a gente aponte.

A proa aponta para leste, onde o sol nasce dia após dia teimosamente desde que o mundo é mundo. Não preciso zarpar para que a direção tenha sentido. Apontar para o leste me faz lembrar do mistério do sol que garante nossa existência humana.

A proa apontada já é uma declaração. Já é uma oração. Já é um modo de habitar o vazio — não fugindo dele, não preenchendo-o, mas permanecendo na direção, mesmo sem movimento, mesmo apoiados em seu berço confortável.

Joel terminou seu ensaio dizendo que "o que resta é o gesto". Eu, Cleófas, acrescento: o gesto pode ser apenas este — continuar presente no lugar onde o barco foi sonhado, mesmo sem a certeza de que um dia zarpará como se sonhou.

Não é derrota. É outra forma de travessia. É outra forma de navegar.

5. A Carta para Joel[12], Ana[13], Efraim[14] e Barnabé[15]

Queridos Joel, Ana, Efraim e Barnabé,

Escrevo do estaleiro. A madeira está empilhada, a plaina espera, o cheiro de cedro ocupa o ar. 

Escrevo não porque tenha algo novo a dizer, mas porque preciso registrar uma descoberta pequena e frágil — daquelas que a gente só percebe depois de muito tempo sentado no mesmo lugar.

O vazio não é uma coisa. É uma relação.

Não há vazio "em si". Há vazio entre. Entre mim e o que perdi. Entre a proa e o horizonte. Entre a mão que aperta o parafuso e a mão que não estará ali para se alegrar com os vislumbres. Entre a Ausência e a Presença. Compreender isso não aliviou a dor — mas mudou a natureza da pergunta.

Antes eu perguntava "como preencher o vazio?". Agora pergunto "como habitar este espaço entre?".

Joel, você aprendeu que orar é estender as mãos vazias para o nada. Aprendo, com você, que habitar o vazio é aceitar que o barco talvez nunca ficará pronto. Não porque falte habilidade ou madeira. Me parece que estar pronto é uma ilusão dos vivos que ainda não perderam nada.

Barnabé, você vigia minha soberba. Lembra-me, sem palavras, que toda vez que acho que entendi algo, provavelmente estou apenas emoldurando a dor[16] para não a sentir. 

Seu ensaio sobre o Poder que não aceita a Fragilidade foi o espelho que me mostrou que até a desconstrução pode virar um novo altar de orgulho. 

Obrigado por aparecer na oficina naquela tarde. Seu silêncio ao meu lado valeu mais que todos os conselhos que já recebi.

Efraim, você desarmou meus altares — mostrou que todo altar que construímos com as próprias mãos corre o risco de ser um ídolo, e que o sangue que pensei necessário era apenas o eco da minha própria violência. 

Sua desconfiança dos meus gestos bonitos me salvou de mais um rascunho mentiroso.

Ana, você me ensinou o ventre vazio como altar. A terra que espera. O corpo que não produz, mas acolhe. Sua imagem do ventre vazio como espaço sagrado me acompanha cada vez que entro na oficina e não encontro nada para fazer.

O que posso devolver a vocês é apenas isto: aprendi cinco modos de não navegar. Aceitação, lamento, companhia, silêncio, dúvida. Nenhum deles leva a lugar nenhum. Todos eles me ensinaram a ficar e aos poucos habitar "entre".

E deixo com vocês mais um modo de [não] Navegar como Paralisia. Com isso sinto novamente os lampejos de esperança em sentir o vento tocando meu rosto.

Cleófas, com serragem nas mãos e dúvidas no bolso — mas agora com menos pressa e sem paralisia.

*  *  *

6. Gesto Final

O ensaio termina aqui — não porque a jornada de Cleófas tenha chegado a um destino, mas porque ele aprendeu a parar sem que a parada seja uma derrota.

O que este conjunto de escritos revela é uma transição sutil, quase imperceptível: Cleófas deixou de lutar contra o vazio para começar a habitá-lo.

Não encontrou respostas para as perguntas que o assombravam. Não reconstruiu o barco. Não reencontrou a filha. Não deixou de sentir a ausência que se expande. Mas algo mudou na qualidade da sua presença no mundo.

A oficina, que antes era o lugar da fuga ou da memória, tornou-se o lugar da liturgia. Não uma liturgia grandiosa — não há incenso, não há cânticos, não há altar.

Há uma plaina, uma bancada, madeira que espera. Há uma mão que se move mesmo sem saber para onde. Há um homem que aprendeu que o gesto não precisa de conclusão para ter sentido.

Ele ainda não sabe se o barco estará um dia no mar. Eu, que organizo estes escritos, também não. Mas a proa — a proa está apontada para leste. Parece que ele vê o mistério ao nascer do sol iluminando a proa.

E, por enquanto, isso é suficiente.

O peregrino segue. Não mais com a pressa de quem precisa chegar, mas com a lentidão de quem descobriu que o caminho não é meio — é morada.

*  *  *

Notas de Rodapé:

[1] GIRARD, René. O Bode Expiatório. Paulus, 2004 (original: Le Bouc émissaire, Grasset, 1982). — Já citado por Joel, mas relevante para Cleófas na medida em que ele desmonta a lógica do sacrifício e descobre que o altar vazio não é fracasso — é libertação.

[2] BOSS, Pauline. Ambiguous Loss: Learning to Live with Unresolved Grief. Harvard University Press, 1999. A perda de Cleófas (a filha que simplesmente parou de responder) é o arquétipo da "perda ambígua": sem corpo, sem ritual, sem fechamento. Boss mostra que a resiliência não está em "superar", mas em aprender a conviver com as perguntas em aberto.

[3] WOLTERSTORFF, Nicholas. Lamento por um Filho. Tradução de Susana Klassen. Viçosa: Ultimato, 2004. O filósofo e teólogo que perdeu o filho num acidente de montanhismo. Escreveu: "I cannot fit it all together" — a mesma falência do conhecimento diante da morte que Cleófas experimenta.

[4] LEWIS, C. S. A Anatomia de um Luto. Tradução de Thereza Christina F. Stummer. São Paulo: Martins Fontes, 1996. O diário de luto de Lewis após a morte de sua esposa Joy. Ele registra o silêncio de Deus, a falência das explicações teológicas e a redescoberta de uma fé que não precisa de respostas.

[5] DIDION, Joan. O Ano do Pensamento Mágico. Tradução de Paulo Reis. São Paulo: Globo, 2006. Didion dissecou o próprio luto com o olhar analítico de quem tenta quantificar o inquantificável — exatamente como Cleófas anota a "taxa de entrada de água por minuto" enquanto naufraga.

[6] CAPUTO, John D. The Weakness of God: A Theology of the Event. Indiana University Press, 2006. Caputo desenvolve a "teologia fraca": Deus não como superagente que intervém, mas como força débil que acompanha. O Deus que não impede a morte não falhou — apenas não opera por poder.

[7] BRUEGGEMANN, Walter. "The Costly Loss of Lament." Journal for the Study of the Old Testament, 1986. Artigo seminal sobre como a modernidade perdeu a linguagem do lamento. Brueggemann argumenta que o lamento é um ato de resistência e fé.

[8] DEVINE, Megan. Tudo Bem Não Estar Tudo Bem: Vivendo o luto e a perda em um mundo que não aceita o sofrimento. Tradução de [verificar]. Rio de Janeiro: Sextante, 2021. Devine denuncia a cultura que exige "superação" e emoldura a perda como lição. Ecoa diretamente a recusa de Cleófas em embelezar a dor.

[9] BRUEGGEMANN, Walter. Interrupting Silence: God's Command to Speak Out. Westminster John Knox Press, 2018. Brueggemann distingue o silêncio reverente do silêncio imposto. O silêncio de Cleófas na oficina é o silêncio de quem não tem mais nada a dizer — e Brueggemann o reconhece como forma legítima de presença.

[10] PESSANHA, Juliano Garcia. Sabedoria do Nunca (1999), Ignorância do Sempre (2000), Certeza do Agora (2002), Instabilidade Perpétua (2009). Ateliê Editorial. Pessanha trabalha o "desaprender" como movimento necessário diante do que não se deixa capturar pelo conhecimento. Cleófas desaprende a engenharia da alma — Pessanha oferece a moldura filosófica para esse gesto.

[11] CRAWFORD, Matthew B. O Valor do Trabalho: Uma Investigação sobre o Sentido do Trabalho Manual. Tradução de Cláudio Carina. Rio de Janeiro: Record, 2011. Crawford defende que o trabalho manual oferece um tipo de inteligência que o trabalho intelectual não alcança. A plaina de Cleófas substitui a palavra — exatamente o que Crawford descreve como a "sabedoria da mão".

[12] Ensaio de Joel: Aprendendo a [não] Orar atravessou Cleófas em seus momentos mais inexplicáveis.

[13] Ensaios de Ana: O Silêncio que Habita o Vazio e A Liturgia das Mãos Vazias de alguma forma também já estavam no bolso de Cleófas.

[14] Ensaios de Efraim: A Fragilidade resgatada pelo Amor Eterno e O Sangue que desmascarou o Mecanismo Político-Religioso de alguma forma também já estavam no bolso de Cleófas.

[15] Ensaio de Barnabé: O Poder não Aceita a Fragilidade atravessou Cleófas em seus momentos mais inexplicáveis. 

[16] WINK, Walter. Engaging the Powers: Discernment and Resistance in a World of Domination. Fortress Press, 1992. — O "Mito da Violência Redentora" que Cleófas precisa desaprender: a crença de que o sofrimento precisa ter um propósito, de que a dor precisa ser redimida por um resultado.

*  *  *


A duras penas tenho aprendido habitar o vazio. Não como uma opção virtuosa. Como opção de sobrevivência. 

Sobreviver é também sobre viver! Coração rasgado há 13 anos.

Arnoldo Mendonça – 4 de junho de 2026



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