Ana aprendeu a nomear o que sentia.
Mas nomear não é o mesmo que soltar.
Neste segundo ensaio, ela descobre que a verdadeira liturgia não está nas palavras certas, mas no vazio entre as mãos abertas.
É um convite incômodo e libertador: parar de segurar. Deixar que o silêncio, a dúvida e o lamento sejam também formas de oração — talvez as únicas que funcionam quando já não sabemos mais o que dizer.
Se o primeiro[1] movimento da jornada de Ana foi marcado pelo barulho surdo das paredes que caíam e pela poeira sufocante de seus altares demolidos, este segundo ensaio nos conduz ao dia seguinte do colapso.
O que faz o peregrino quando a fumaça assenta, as certezas se dissipam e tudo o que resta diante de si é a vastidão plana e silenciosa de um deserto que não promete nada?
As folhas que compõem este manuscrito, intitulado A Liturgia das Mãos Vazias, revelam uma Ana que já não luta contra a sua esterilidade, mas que começa a usá-la como um instrumento de medição.
Se antes ela agia como uma engenheira civil obstinada em erguer monumentos indestrutíveis para conter o sagrado, aqui ela assume o papel de uma topógrafa do invisível.
Com a chegada providencial de um novo fragmento trazido pelo vento — desta vez contendo as reflexões de Joel[2], um peregrino que ela jamais conheceu —, Ana descobre que o vazio não é um território sem leis ou um sinal de abandono, mas um espaço que possui suas próprias coordenadas, sua própria geografia e, surpreendentemente, sua própria liturgia.
Neste texto, a oração deixa de ser uma performance de preenchimento e passa a ser o gesto de tatear o escuro.
Ana nos ensina que o lamento e a dúvida não são os inimigos da devoção, mas as suas formas mais puras e honestas.
E, ao acrescentar o seu próprio "sexto modo de orar", ela consagra a escrita como o sacerdócio daqueles que caminham sem mapa.
Na ciência da topografia, mapear um terreno acidentado exige instrumentos de extrema precisão: o teodolito para medir os ângulos, a mira para determinar as altitudes e o prumo para garantir a verticalidade absoluta diante da gravidade.
No entanto, o maior desafio de um agrimensor não é medir o que está visível, mas calcular as curvas de nível de um terreno que se move.
No deserto, onde as dunas de areia mudam de lugar sob o sopro de uma única tempestade noturna, os marcos fixos desaparecem.
Não há rochas eternas onde apoiar o tripé; não há coordenadas absolutas. Mapear o deserto é aprender a desenhar o efêmero.
Ana compreendeu que sua nova caminhada exigia essa mudança de ofício. Ela já não podia se comportar como quem assenta tijolos sobre fundações de pedra.
Naquela imensidão de areia e sol, ela precisava aprender a ler as sutilezas do relevo invisível de sua alma. Sua mochila, agora mais leve após o descarte das pedras do altar de Efraim[3], continha apenas o essencial: um rolo de papel áspero, um pedaço de carvão e a disposição para medir o abismo de sua própria falta.
Caminhar no deserto sem marcos divisórios é uma experiência de desorientação espacial que apavora os despreparados.
Para Ana, contudo, a ausência de estradas asfaltadas ou de placas indicativas tornou-se uma escola de atenção.
Cada duna que subia, com o vento fustigando sua túnica e a areia fina penetrando em suas sandálias, era uma lição sobre a impermanência.
Ela percebeu que tentar fixar uma certeza no deserto é tão inútil quanto tentar cravar uma estaca de ferro na areia movediça.
A única cartografia possível era a do movimento: registrar onde o cansaço apertava, onde a sede se fazia mais aguda e onde, contra todas as expectativas, o silêncio deixava de ser uma ameaça e passava a ser uma presença.
A escrita tornou-se o seu prumo. Ao riscar o papel com o carvão, Ana não tentava construir um monumento que o vento destruiria no dia seguinte; ela tentava apenas registrar a inclinação de sua alma naquele instante preciso da caminhada.
Ela estava medindo a distância entre a sua dor e o silêncio do Eterno, descobrindo que, mesmo em um terreno sem estradas, o ato de mapear a própria vulnerabilidade já é uma forma de encontrar um caminho.
* * *
Guardei o lápis de carvão e o papel no fundo da mochila, ao lado das folhas amarradas de Efraim, e continuei a andar.
Mas algo havia mudado na forma como eu pisava. Cada passo tornou-se uma medição: a dureza do solo sob a planta do pé, o ângulo do joelho ao subir a duna, o tempo que a areia levava para cobrir minhas pegadas depois que eu passava.
Eu estava aprendendo que topografar o invisível não é desenhar um mapa estático — é registrar o movimento.
Mais tarde, quando o vento me trouxe as palavras de Joel, compreendi que os cinco modos que ele descrevia eram exatamente isso: coordenadas que eu já estava tateando sem saber nomear.
O lamento era a altitude da minha dor. O silêncio era a distância entre mim e o Eterno quando as palavras não alcançam. A dúvida era o fio de prumo que revelava onde a parede estava torta. Ele me deu nome para aquilo que meus pés já estavam aprendendo sozinhos.
Há dias em que o deserto parece zombar de nossa sede. Eu estava sentada debaixo daquela mesma árvore cujas folhas secas, ao menor sopro do ar, produzem um som idêntico ao de água corrente.
É uma ironia cruel: um sussurro de cachoeira em um lugar onde a terra está rachada de secura.
Mas eu já não me importava com as ironias. Aprendi a aceitar que o deserto é honesto em sua crueza; ele não promete sombras que não pode dar, nem finge ser um jardim.
Foi nesse estado de suspensão que o vento da tarde me trouxe o segundo papel. Ele estava muito mais castigado que o primeiro de Efraim.
Suas bordas estavam desfiadas, a textura do papiro parecia gasta pelo atrito de muitas mãos e a caligrafia, embora firme, exibia borrões escuros que pareciam marcas de chuva antiga — ou de lágrimas que secaram há muito tempo. Era o texto de Joel.
Joel não falava de altares ou de sacrifícios de sangue. Ele falava de algo muito mais íntimo e devastador: a liturgia da oração quando não se sabe mais o que dizer.
Ele descrevia cinco modos que aprendera em sua própria peregrinação para se comunicar com o Invisível. Mas os nomes que ele lhes dava não eram os que eu aprendera no templo. Ele não os chamava de súplica ou de ação de graças. Ele chamava de:
[Não] Orar Pedindo para Abrir Caminhos — que era aprender a estar diante do Mistério sem estender a mão para receber, confiando que o chão já está sob os pés ainda que não se veja a estrada.
[Não] Orar Agradecendo Diante da Dor — que era recusar-se a vestir o horror com roupas de domingo, deixando que o grito fosse tão sagrado quanto o louvor.
[Não] Orar Sem Ouvidos Atentos ao Outro — que era descobrir que o sagrado não acontece apenas no altar, mas no espaço entre dois corpos que se inclinam um para o outro.
[Não] Orar Tagarelando Diante do Silêncio — que era aceitar que há momentos em que a única palavra possível é nenhuma, e que o silêncio não é vazio, mas presença que não precisa se justificar.
E [Não] Orar com Todas as Certezas — que era, para ele, o mais difícil de todos: soltar as verdades que usamos como escudo, abrir a mão que aperta o punho, habitar a pergunta sem exigir resposta.
Ao ler aquelas palavras, senti como se Joel estivesse usando uma mira topográfica para alinhar o meu próprio peito.
Ele não estava me oferecendo um mapa para sair do deserto; ele estava me dizendo que o deserto tinha coordenadas litúrgicas.
E que a oração, longe de ser a petição bem-educada que eu aprendera a recitar no templo, poderia ser o gesto simples e desesperado de estender as mãos vazias para o nada, confiando que o próprio gesto de esticar os braços já era a conexão que eu tanto buscava.
A cultura religiosa em que fui criada sofre de uma patologia que posso chamar de "obsessão pelo acabamento"[4].
Exige-se que toda história de dor termine com um testemunho de superação; exige-se que todo choro seja engolido por um cântico de vitória; exige-se que o peregrino sempre diga "amém" e agradeça "em tudo", mesmo quando o "tudo" em questão é o desmoronamento de sua dignidade ou a morte silenciosa de suas esperanças.
Essa exigência de gratidão incondicional não é espiritualidade; é uma blindagem psicológica que os fortes usam para não terem que lidar com a incômoda visão da fragilidade alheia.
Joel, em seu manuscrito, quebra essa blindagem ao resgatar a dignidade do lamento. Ele escreve que o lamento é uma oração legítima,
"uma recusa em fingir que está tudo bem, uma resistência ativa à realidade que nos esmaga".
Essa definição me devolveu o direito de gritar. Percebi que, ao passar anos engolindo o meu choro e tentando performar uma aceitação pacífica da minha esterilidade, eu estava, na verdade, violentando a minha própria humanidade.
O lamento não é falta de fé. O lamento é o reconhecimento honesto de que a realidade está torta, de que o projeto original da vida sofreu uma deformação que não pode ser ignorada.
Eu me lembro do salmista gritando "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?[5]". Ao clamar assim, ele não está cometendo uma heresia; ele está estabelecendo o nível real de sua dor.
Ele está fincando uma baliza topográfica no ponto mais profundo do seu abismo.
Meu corpo entendeu isso antes da minha mente. Lembro que, nas primeiras semanas depois de perder a esperança — o meu Samuel, eu acordava com a garganta fechada, como se um nó houvesse se instalado ali, físico, palpitante, recusando-se a ser engolido.
As mulheres da igreja diziam: "Você precisa liberar o perdão, precisa agradecer, precisa seguir em frente." Mas meu corpo sabia que ainda não era hora.
O choro preso não era falta de fé; era o resíduo de uma verdade que ainda não havia sido dita em voz alta.
Quando finalmente o grito saiu — aquele som feio, animalesco, que nenhum coro de igreja ensaiaria —, senti a garganta se abrir como uma comporta.
Não era bonito. Não era piedoso. Mas era verdadeiro. E a verdade, descobri, é a única liturgia que o Eterno não despreza.
O murro na mesa, o grito na noite escura e a lágrima que mancha o papel são liturgias de uma honestidade brutal que o Eterno respeita muito mais do que as nossas petições ensaiadas e hipócritas.
O lamento é a nossa recusa em divinizar a injustiça e a dor.
A segunda coordenada que Joel me apresentou foi a dúvida. Ele escreveu uma frase que gravei na memória como quem grava uma marca de demarcação em uma rocha:
"Orar com dúvida não é orar apesar dela. É orar através dela."
Sempre me ensinaram que a dúvida era o oposto da fé. Disseram-me que a dúvida era como uma trinca em uma viga de sustentação: se você permitisse que ela existisse, toda a estrutura da sua salvação viria abaixo.
Por isso, passei anos reprimindo as minhas perguntas. Quando lia passagens bíblicas que falavam de um Deus que exige sangue[6], que ordena massacres ou que se cala diante da dor dos inocentes, eu fechava os olhos e repetia para mim mesma: "Deus é justo, o problema é a minha mente limitada".
Eu preferia lobotomizar a minha inteligência a admitir que o projeto tinha falhas de coerência.
Mas a dúvida honesta não é a inimiga da fé; ela é o seu prumo[7]. O prumo é um instrumento simples: um peso de metal suspenso por um fio que, pela força da gravidade, aponta sempre para o centro da terra, revelando qualquer inclinação ou desvio na parede que está sendo erguida.
A dúvida faz exatamente isso: ela revela quando a nossa teologia está desalinhada com a realidade da vida. Ela não mente. Ela aponta para a gravidade da nossa condição humana.
Quando, naquela noite escura no chão do meu quarto, eu gritei: "Não acredito mais que você existe!", eu não estava abandonando a Deus.
Eu estava, pela primeira vez, sendo verticalmente honesta com Ele. Eu estava dizendo que o Deus que me apresentaram — o Deus da retribuição e dos favores comprados — havia morrido para mim.
E, ao deixar que esse ídolo caísse, descobri que o verdadeiro Deus não se ofendeu com o meu grito.
Ele permaneceu ali, no silêncio, sustentando o fio do meu prumo enquanto eu tentava me realinhar com a verdade.
O quarto modo de Joel é o silêncio. Mas não o silêncio da ausência ou do vazio frio do espaço sideral. É o silêncio que ele chama de "teologia do chão", inspirada na história de Jó.
Quando os amigos de Jó souberam de sua tragédia, eles não chegaram com versículos decorados, com explicações teológicas sobre a soberania divina ou com promessas de restauração em dobro.
O texto bíblico[9] diz que eles se aproximaram, rasgaram suas túnicas, lançaram poeira sobre as cabeças e sentaram-se com ele no chão.
Sete dias e sete noites. E ninguém lhe dizia palavra alguma, porque viam que a dor era muito grande.
Durante anos, passei por esta passagem como quem passa por uma porta sem entrar. Eu queria chegar logo aos discursos, às respostas, ao final feliz. Achava que o silêncio dos amigos era apenas um preâmbulo — algo a ser superado para chegar ao que realmente importava[10].
Mas hoje, sentada na areia que já começava a esfriar com a aproximação da noite, compreendi que o silêncio deles não era o preâmbulo de nada. Era o coração da história.
Tudo o que veio depois — os discursos vazios, as acusações piedosas, a voz de Deus do redemoinho — só foi possível por causa daquele silêncio. Foi ele que criou o chão onde a verdade poderia, mais tarde, ser plantada.
Lembro-me de uma tarde, meses antes de eu mesma pegar a estrada. Uma vizinha havia perdido o filho. Eu fui visitá-la levando um bolo, porque não sabia o que fazer e o bolo era o único gesto que eu conhecia para esses momentos.
Quando entrei, ela estava sentada no sofá com o rosto entre as mãos. Coloquei o bolo na mesa e sentei-me ao lado dela. Não disse nada. Ficamos assim, em silêncio, por um tempo que não sei medir. Quando me levantei para ir embora, ela ergueu os olhos e disse: "Obrigada por não ter dito nada."
Na época, achei que tinha feito algo errado. Que minha presença fora insuficiente, pobre, vazia. Hoje entendo que o vazio da minha presença foi exatamente o que ela precisava.
Eu não levei respostas consoladoras, não tentei embrulhar a dor dela em um propósito maior, não recitei promessas que não poderiam ser cumpridas. Eu apenas estive lá.
Minhas mãos vazias, estendidas sem nada para oferecer, foram o meu único gesto verdadeiro.
Quantas vezes, nos meses mais áridos da minha espera por Samuel, desejei que alguém viesse e se sentasse comigo sem trazer um manual de instruções.
Quantas vezes desejei que, em vez de dizerem "Deus tem um propósito" ou "isso é uma preparação para algo maior", alguém apenas se sentasse no chão frio do meu quarto e ficasse calado.
Não porque o silêncio resolvesse alguma coisa, mas porque ele não mentia. As palavras mentem porque prometem sentido onde ainda não há.
O silêncio não promete nada. Ele apenas fica.
E, às vezes, ficar é o mais perto que podemos chegar do Amor Eterno.
O chão é o lugar mais democrático que conheço. Rico e pobre, santo e pecador, crente e ateu — todos eventualmente acabam no chão.
É lá que o corpo encontra seu nível zero. Não há altitude no chão, não há hierarquia, não há privilégio. Há apenas o peso do corpo que se entrega à gravidade.
Descer ao chão é descer da posição de quem explica para a posição de quem simplesmente está.
Por isso a Teologia do Chão não sobe em direção a um Deus distante para implorar respostas; ela desce em direção ao humano que sofre. E descobre, ao descer, que o Eterno já estava lá — embaixo, na poeira, esperando.
Quantas vezes eu não fui fustigada por "bocas que se abriam e fechavam sem ninguém para dublar"[11], pessoas piedosas que tentavam explicar a minha esterilidade como "um plano misterioso de Deus" ou "uma preparação para algo maior".
Essas palavras não eram consolo; eram ruídos que tentavam abafar o desconforto que a minha dor causava nelas.
Elas não estavam falando para mim; estavam falando para si mesmas, para se convencerem de que o sofrimento tem um controle remoto nas mãos de Deus.
O verdadeiro consolo não tem som. É o amigo que se senta ao nosso lado na poeira, que divide o chão conosco e que aceita o fato de que não há nada a ser dito.
É o Deus que, em vez de nos dar uma palestra explicativa sobre o sofrimento, decide encarnar-se e chorar conosco diante do túmulo de Lázaro[12].
O silêncio compartilhado é a liturgia daqueles que sabem que a presença[13] é mais importante do que a explicação.
Esse é o silêncio que cura.
É o silêncio de quem compreende que há dores que são estruturalmente grandes demais para serem contidas em palavras.
Qualquer tentativa de consolo verbal diante de uma tragédia recente soa como fita adesiva em uma parede rachada sob terremoto; é ridícula e ofensiva.
Joel terminou o seu texto com cinco modos. Mas, enquanto eu caminhava sob o sol da tarde, percebi que ele havia deixado um sexto modo subentendido em cada linha de seu papiro.
Um modo que ele mesmo praticava sem ter nomeado.
O sexto modo de orar é a escrita.
Efraim escreveu para entender suas inquietações.
Joel escreveu para registrar seus modos de não orar.
Eu estou escrevendo estas cartas para eles, para mim e para o vento, como quem tenta tatear o Invisível através dos rabiscos do carvão no papel.
A escrita é a liturgia daqueles que não têm mais voz para falar, mas cujas mãos ainda recusam a paralisia.
Colocar o caos em letras, organizar a dor em parágrafos e dar nomes às nossas angústias é um ato sacerdotal de extrema dignidade.
Quando escrevo, não estou tentando convencer Deus de nada; estou apenas estendendo minhas mãos vazias em forma de palavras.
Estou dizendo: "Eis aqui o mapa do meu dia. Eis aqui as minhas curvas de nível, as minhas coordenadas imprecisas, as minhas rachaduras expostas".
Na topografia, quando o terreno é acidentado demais para os instrumentos de precisão, o profissional faz um croqui — um desenho a mão livre, sem medidas exatas, que registra o que os olhos veem mas os números não capturam.
O croqui não tem a pretensão do mapa final. Ele é provisório, sujeito a rasuras, manchado pelo suor da mão que o desenha.
É isso que esta escrita é para mim: o croqui de uma alma em terreno irregular.
Não estou construindo um documento que durará gerações. Estou apenas riscando, com a ponta do carvão, a forma instável da minha paisagem interior neste exato momento.
Se amanhã o vento desmanchar o que desenhei hoje, que assim seja. O croqui não é feito para ser permanente; é feito para que quem o desenha não perca o rumo enquanto caminha.
Essa escrita não busca respostas. Ela é, em si mesma, a resposta. É a prova de que, mesmo no meio do deserto, mesmo sem Samuel e mesmo sem milagres, eu continuo presente.
Continuo tateando. Continuo existindo.
E talvez essa seja a maior de todas as heresias mansas: a de que o ventre vazio de uma mulher sem respostas pode ser, ele mesmo, a morada do Eterno, contanto que ela tenha a coragem de não o preencher com mentiras.
De algum lugar do caminho, sob a árvore que sussurra como água, onde aprendi que ter as mãos vazias é a única forma de estar verdadeiramente pronta para receber.
Querido Joel,
Seu texto me encontrou hoje. Ele veio arrastando-se pela areia, amassado e gasto, como um peregrino que já caminhou por muitas estradas antes de decidir parar aos meus pés.
Sentei-me no chão, alisei suas rugas contra a minha coxa e li suas palavras debaixo de uma árvore que faz som de água corrente para zombar da minha sede.
Mas hoje eu não tive sede de certezas; tive apenas fome de honestidade.
Quero que saiba, Joel, que sua carta não viaja sozinha. No bolso da minha túnica, bem próximo ao meu peito, carrego também os escritos de Efraim, o peregrino que me ensinou a ter coragem para demolir os meus altares de barganha.
E agora, de um jeito que não sei explicar, eu me tornei o ponto de encontro de vocês dois. O vento do deserto, que não faz nada por acaso, costurou as nossas solidões neste pedaço de chão.
Suas palavras sobre o lamento me devolveram o grito que eu havia engolido há anos. Eu fui ensinada que a boa peregrina caminha em silêncio, agradecendo pelas pedras que cortam seus pés e sorrindo diante dos "nãos" de Deus como se fossem presentes embrulhados em mistério.
Mas você me disse que o lamento é resistência. Que o murro na mesa e o "isso não está certo" são orações tão sagradas quanto os salmos de louvor que os sacerdotes cantam no templo.
Obrigada por me devolver a minha dignidade de gritar.
E a dúvida, Joel... Ah, a dúvida! Como foi libertador ler que orar com dúvida é orar através dela.
Lembrei-me da noite em que desabei no chão do meu quarto e disse em voz alta que já não acreditava na existência de Deus.
Achei que aquela noite tinha sido o fim da minha vida espiritual. Hoje, lendo você, percebo que foi o começo. Foi a primeira vez que usei o prumo da honestidade para medir a inclinação da minha alma.
Mas preciso ser honesta com você, Joel, como você foi comigo.
Há dias em que acordo e sinto que toda esta descoberta não passou de um exercício bonito de resignação disfarçada de iluminação.
Há dias em que o vazio volta a ser ameaça, e não morada. Em que olho para o meu ventre e sinto apenas a ausência, não o espaço sagrado que descrevi.
Nesses dias, a Liturgia das Mãos Vazias parece uma mentira bem vestida. E então eu me pergunto: será que estou apenas trocando um altar de certezas por um altar de dúvidas? Substituindo um orgulho doutrinário por um orgulho de desconstruída?
Se isso acontecer, que seu ensaio me atravesse de novo assim como o vento atravessa o deserto. Que seu ensaio me acorde mais uma vez com o sopro do vento.
Diga-me que a fragilidade também inclui a fragilidade de recair, de duvidar da própria dúvida, de começar de novo no chão quantas vezes forem necessárias.
O deserto não é um estado que se supera; é um lugar que se aprende a habitar. E eu ainda estou aprendendo.
Estou acrescentando um sexto modo aos seus cinco, Joel. Um modo que você usou para escrever esse papiro e que eu estou usando agora para lhe responder: a escrita.
Escrever na areia, riscar o papel com carvão, dar contorno de letras ao nosso caos interior é a nossa liturgia das mãos vazias.
É o nosso jeito de dizer ao Eterno que, mesmo sem respostas, mesmo sem Samuel e mesmo sem milagres, nós continuamos aqui.
Meu ventre continua vazio, Joel. Mas já não sinto dor por isso. Descobri que o vazio não é ausência; é espaço.
É o lugar que o Amor Eterno escolheu para habitar em mim, não como um peso que me esmaga, mas como uma presença leve, que não exige sacrifícios e não cobra pedágio.
Sigo com os papéis de vocês dois no meu bolso. Eles são a minha bússola quebrada. Ela não aponta para um Norte seguro, mas me lembra de que não estou caminhando sozinha neste deserto.
Com a fragilidade que é a nossa única força comum, sua amiga Ana.
* * *
Acompanho com o olhar o vulto de Ana se diluir na vastidão cinzenta do deserto sob a primeira luz das estrelas.
O vento frio da noite começa a soprar, mas ela não parece ter pressa em encontrar abrigo.
Seus passos na areia movediça não buscam mais a segurança de uma estrada pavimentada; possuem a cadência rítmica e serena de quem aprendeu a navegar pelas estrelas e a confiar na topografia do invisível.
Ela para por um instante, retira do bolso da túnica os manuscritos de Efraim[15] e Joel, agora guardados juntos, amarrados com o mesmo fiapo de tecido rústico.
Ela não precisa lê-los novamente; as palavras já se tornaram parte de sua própria estrutura interna, juntas de dilatação que dão flexibilidade à sua alma.
Ela guarda os papéis de volta, ajusta a mochila leve e dá o próximo passo. O deserto continua imenso, silencioso e vazio, mas Ana caminha em paz, sabendo que suas mãos vazias são, finalmente, o seu altar mais bonito.
E seu ventre vazio — onde o Eterno, silencioso, habita[16] — está leve. Ela dá o próximo passo. Mais um passo e depois outro.
O vento sopra e apaga suas pegadas na areia, mas ela não olha para trás para ver se o rasto ainda está lá. Ela apenas caminha. Basta para hoje.
E amanhã, mais uma vez — [re]começar!
* * *
Notas de Rodapé:
[1] O Silêncio que Habita o Vazio: ensaio de Ana refletindo sobre a desconstrução dos motivos pelos quais suas orações não foram respondidas.
[2] Aprendendo a [não] Orar: ensaio de Joel refletindo sobre a desconstrução das maneiras certas de orar, ele percebe que sua realidade o leva a outras formas de expressar-se diante da Presença do Eterno.
[3] A Fragilidade Humana resgatada pelo Amor Eterno: ensaio de Efraim refletindo sobre a desconstrução da necessidade do pagamento sacrificial para aplacar a ira de um Deus irado.
[4] Há uma indústria espiritual que lucra com a cura alheia. Ela exige que toda ferida se transforme em testemunho, que toda lágrima seja moeda de troca por um "milagre" futuro. Barbara Ehrenreich, em Sorria: como a promoção incansável do pensamento positivo enfraqueceu a América (Editora Record, 2013), denunciou como a cultura do pensamento positivo — em suas versões secular e religiosa — culpabiliza a vítima pelo próprio sofrimento: se você não foi curado, é porque não agradeceu o suficiente, não declarou com fé suficiente, não performou a gratidão com intensidade suficiente. Kate Bowler, em Tudo Acontece por uma Razão: e outras mentiras que amei (Editora Pergaminho, 2023), escreveu do leito de hospital, com câncer em estágio 4, sobre o absurdo de ouvir "tudo acontece por uma razão" quando o que acontece é simplesmente injusto. Ana intuiu, antes de ler qualquer uma delas, que a exigência de gratidão incondicional não é espiritualidade — é uma blindagem que os fortes usam para não terem que olhar para a fragilidade que os incomoda. O lamento não é a recusa da fé; é a recusa de uma fé que mente.
[5] Texto bíblico em Salmo 22.
[6] O Sangue que desmascarou o Mecanismo Político-Religioso: ensaio de Efraim refletindo sobre a desconstrução dos acordos entre o Palácio e a Igreja pelo Sangue de Jesus Cristo assassinado por ser Frágil.
[7] Paul Tillich, em Dinâmica da Fé (tradução de Walter O. Schlupp, Editora Sinodal, 1985), escreveu que a fé não é a ausência de dúvida, mas a coragem de estar na dúvida sem deixar de estar voltado para o que nos concerne ultimamente. Para ele, a fé que não duvida não é fé — é certeza. E a certeza, quando aplicada ao Mistério, transforma-se em ídolo. Peter Rollins, herdeiro incendiário de Tillich, levou essa intuição às últimas consequências em How (Not) to Speak of God: ele sugere que a verdadeira fé não é acreditar apesar da dúvida, mas abraçar a dúvida como o único caminho para um amadurecimento que não precisa de garantias. Sua "piroteologia" — uma fé que queima as próprias certezas — dialoga diretamente com o gesto de Ana: quando ela diz que preferiu "lobotomizar a inteligência a admitir que o projeto tinha falhas de coerência", Tillich responderia que essa lobotomização não fortaleceu a fé dela; transformou-a em ideologia. A dúvida de Ana não é o oposto da fé — é o fio de prumo que, puxado pela gravidade da honestidade, revelou que a parede estava torta. E que o Eterno não se ofende com paredes tortas; Ele as habita.
[8] A expressão "Teologia do Chão" não é um conceito formal nos manuais, mas nomeia uma tradição tão antiga quanto a própria fé: a descoberta de que o sagrado não desce sobre o altar, mas sobe do chão onde nos sentamos com o que sofre. Walter Brueggemann, em sua leitura dos Salmos de Lamento — desenvolvida em A Imaginação Profética —, percebeu que o silêncio compartilhado diante da dor não é passividade — é uma "resistência ativa contra a teologia triunfalista que sempre quer pular para a ressurreição sem passar pelo sepulcro". O chão de Jó não é apenas um lugar físico; é a posição teológica de quem recusa explicações fáceis em troca de presença real. Sentar-se no chão com o outro é dizer, sem palavras: "Não vou fugir da sua dor, nem vou explicá-la. Vou ficar." E, na tradição monástica, há um nome para isso: hospitalidade. Não a hospitalidade que oferece comida e abrigo, mas a hospitalidade que oferece o próprio silêncio como casa.
[9] Texto bíblico em Jó 2:11-13 — A tradição interpretativa sempre se concentrou nas falas posteriores dos amigos — seus discursos teológicos que tentam explicar o sofrimento e que, no final, são rejeitados por Deus. Mas Ana percebe algo que os exegetas muitas vezes apressam: o gesto inicial dos amigos é o único momento em que eles acertam. Antes de abrirem a boca, eles são o modelo do consolo verdadeiro. É a palavra que estraga a presença. Talvez a maior lição de Jó não seja sobre paciência, mas sobre o silêncio como primeira e última forma de amor ao que sofre. A teologia dos amigos fracassou; a teologia do chão — a única que Deus não rebateu — permaneceu.
[10] Enquanto organizo esses textos da Ana, observo que "Chegar ao que realmente importava", eu a parafraseio com a participação contemporânea na eucaristia, passamos rapidamente pelo sofrimento para nos regozijarmos com a ressurreição e assunção. Nos importa mais o Cristo ressurreto que o Jesus de Nazaré, homem na história e motivação para a eucaristia — "Façam isso em Memória de Mim".
[11] "Meu Coração", escrita por Arnaldo Antunes nos anos que se seguiram à sua saída dos Titãs em 1992, não é uma canção sobre o coração — é uma tentativa de fazer o coração caber dentro da boca. Arnaldo sempre soube que o óbvio, quando dito com a precisão de quem não tem medo do ridículo, deixa de ser óbvio e se torna revelação. A música repete a palavra "coração" até que ela perca o sentido decorado e recupere o sentido original — o órgão que pulsa, que aperta, que falha, que insiste em bater mesmo quando a razão manda parar. Não há metáfora ali; há apenas a “coisa”, exposta em sua nudez essencial. É o que Ana descobre ao escrever: não precisa de palavras bonitas para dizer o indizível. Basta repetir o nome da ferida até que ela se torne apenas o que é — uma ferida, não uma história sobre a ferida. Arnaldo canta "meu coração" tantas vezes que o ouvinte já não ouve a palavra, mas sente o músculo. Ana escreve "vazio" tantas vezes que o leitor já não teme o vazio, mas habita-o. Os dois fazem o mesmo gesto: despir a linguagem até que ela seja apenas o que nomeia, sem defesas, sem explicações, sem acabamento.
[12] Texto bíblico em João 11:35.
[13] Simone Weil, filósofa e mística judia que viveu no limiar entre o judaísmo e o cristianismo, escreveu em Espera de Deus (Attente de Dieu, 1951) que "a atenção é a forma mais rara e mais pura de generosidade". Para Weil, orar não é pedir, não é informar, não é convencer — é manter-se voltada para Deus em estado de espera ativa, sem exigir nada, sem agarrar nada. A atenção absoluta é a oração dos que já não sabem o que dizer. Weil viveu o que escreveu: entrou em fábricas para compartilhar o sofrimento operário, recusou-se a comer mais do que os soldados na guerra, e morreu de fome e tuberculose na Inglaterra, aos 34 anos, em solidariedade aos que padeciam sob a ocupação nazista. Sua vida foi uma teologia do chão encarnada: ela não ofereceu respostas, ofereceu presença. Ana, ao descobrir que o silêncio compartilhado é a liturgia dos que sabem que a presença é mais importante que a explicação, reencontra — sem saber — uma tradição que Weil ajudou a manter viva: a de que o Eterno não habita as palavras certas, mas a atenção incondicional.
[14] A escrita como forma de oração é uma tradição tão silenciosa quanto perseverante. Thomas Merton, o monge trapista que escreveu diários durante toda a vida monástica, entendia o ato de escrever como uma disciplina espiritual tão rigorosa quanto a lectio divina — não porque a escrita produza respostas, mas porque ela obriga a alma a dar contorno ao que, sem ela, permaneceria como ameaça informe. "Escrevo", dizia Merton, "porque não sei o que penso até ver o que digo." Mas há uma tensão fecunda aqui: a escrita dá nome ao caos, mas o nome não esgota o caos. Rubem Alves, teólogo-poeta brasileiro, compreendeu como poucos que a linguagem da fé não é a linguagem da definição, mas a linguagem da sugestão — a poesia, não o tratado. Ana sabe disso: ela escreve com lápis de carvão sobre papel áspero, material precário, como quem desenha mapas que o vento apagará. A escrita de Ana não é um monumento; é um rastro. E talvez seja essa a diferença entre o escriba e o peregrino que escreve: o escriba quer que o texto permaneça; o peregrino quer apenas que o texto tenha sido verdadeiro na hora em que foi escrito.
[15] Efraim significa, em hebraico, "duplamente frutífero". O arquiteto de quase setenta anos descobriu sua fertilidade no desapego, na demolição dos altares, na leveza da mochila vazia. Ana, sem saber, realiza essa mesma promessa em seu próprio corpo: seu ventre estéril torna-se fértil de presença. Ele não gerou a vida que ela desejava, mas gerou algo que ela não esperava: a descoberta de que o Eterno não precisa de espaço ocupado para habitar. Efraim e Ana são as duas faces de uma mesma verdade: a fertilidade não está no que produzimos, mas no que nos tornamos capazes de acolher. Ele é frutífero no vazio da mochila; ela é frutífera no vazio do ventre. O nome de um ecoa na carne do outro. Este Curador não sabe se isso é coincidência ou se o vento do deserto escreve com letras mais antigas que nossas intenções.
[16] Mestre Eckhart, pregador dominicano do século XIV, disse algo que atravessa os séculos e encontra Ana sentada na poeira do deserto: "Deus só pode nascer onde há vazio". Para Eckhart, o desapego (Gelassenheit) não é uma técnica espiritual entre outras — é a condição de possibilidade para que o Eterno ocupe o espaço que só o vazio pode oferecer. Enquanto a alma estiver cheia de si, de suas certezas, de suas conquistas ou mesmo de suas dores bem arrumadas, não há lugar para Deus. É preciso esvaziar-se. João da Cruz, no século seguinte, chamou esse esvaziamento de "Noite Escura da Alma" — não um castigo, mas a remoção cirúrgica de tudo o que não é Deus, inclusive das consolações que antes alimentavam a alma. Ana vive exatamente isso: a perda da esperança de Samuel, a realidade de sua esterilidade, o silêncio de Deus. Mas ela não se tornou amarga; tornou-se espaço. O ventre vazio que a cultura (e a religião) apontavam como maldição, ela descobre como santuário. A teologia apofática — que diz que Deus só pode ser conhecido pelo que Ele não é — encontra em Ana sua expressão mais concreta e dolorida: o corpo de uma mulher sem filhos como morada do Eterno. Pseudo-Dionísio, o primeiro grande teólogo da via negativa, escreveu sobre a "Treva Divina" onde as palavras cessam. Ana descobriu que essa treva pode ter a forma de um ventre.
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A Escrita sempre me enfeitiçou. Ordenar palavras, uma após o outra, transformando-as em expressões da fala, dando sentido às ideias e apaziguando a alma sempre exerceram algo quase hipnótico. Lê-las traz novamente a memória do que se sentiu e proporciona ao leitor outras sensações e emoções.
Algumas vezes alterar a ordem das palavras pode facilmente transformar um Altar de Certezas em um Altar de Dúvidas e se ainda expressarem mentiras na minha Fragilidade, que eu tenha oportunidade de reler mais uma vez esses ensaios e me lembrar das verdadeiras emoções que permearam minha alma enquanto as transformava em Escrita.
Arnoldo Mendonça – 11 de maio de 2026
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