Ensaio sobre as inquietações de Efraim ao receber, numa parada do caminho, uma carta de Joel — e ao descobrir que a demolição que ele executou deixou um vazio que outro peregrino aprendeu a habitar antes dele.
Apresento-lhes Efraim, o arquiteto que aprendeu a demolir.
Nos ensaios anteriores[1][2], ele desmontou o altar de Esdras e desmascarou o sangue como moeda de troca. Munido de Girard e Wink, executou uma demolição controlada das estruturas encasteladas de suas crenças. E, na pousada do Anfitrião[3], descobriu que até o banquete pode ter um porteiro — e que a tentação de Mateus[4] ainda habita nele.
Efraim era um demolidor. E, é preciso dizê-lo, a demolição o completava; apaziguava-lhe a alma. Cada viga retirada, cada dogma derrubado, cada altar desmontado lhe devolvia uma leveza que ele confundia com chegada.
Mas havia algo que Efraim nunca se perguntou com honestidade: o que fica no lugar de uma desconstrução?
Se ocupava de limpar os escombros e, sem se virar, partia em busca[5] de outra crença encastelada — como quem fareja[6] o aroma de mofo nas construções não arejadas.
Demolir, para ele, era um verbo que se bastava. O terreno arrasado, o vazio que vem depois, ficava sempre para trás, sem dono, sem morada.
Agora, numa parada do caminho, uma carta de Joel chega ao seu escaninho. E, ao lê-la, Efraim percebe que outro peregrino já mora no vazio que ele deixou — aquele mesmo vazio que ele nunca se permitiu habitar.
O sol castigava o pescoço de Efraim quando ele decidiu parar para revigorar as forças. Setenta anos de caminhada pesam nos ombros, e a sombra de uma acácia solitária era um luxo que ele não podia recusar.
Na beira da estrada, havia um escaninho — uma daquelas Postas do Caminho[7] onde os peregrinos deixam e recolhem cartas. Efraim sabia que ali o esperavam quatro envelopes: Barnabé, Joel, Ana e Cleófas. Ainda não os havia lido; a estrada não lhe dera tempo nem forças.
Sem cerimônia, como quem mete a mão no bolso, ele estendeu o braço e tirou um dos envelopes ao acaso.
Era a carta de Joel.
Junto com ela, um perfil — uma maneira de conhecer aquele peregrino que lhe escrevia. Efraim leu o nome: Joel, o Peregrino que Aprendeu a [não] Orar[8]. O guardião das conchas vazias, aquele que escuta o mar onde todos os outros veem apenas deserto.
Efraim sentou-se na poeira, abriu o envelope e começou a ler.
* * *
A carta de Joel era dirigida a mim e a Barnabé. Li as primeiras linhas e senti um calafrio que não vinha do vento.
"Li seus ensaios e senti que vocês desenharam a planta baixa da minha própria angústia."
Não li o ensaio de Joel. Mas sou arquiteto — e arquitetos sabem ler plantas baixas. Uma planta baixa não mostra a casa pronta; mostra a estrutura, os vãos, as proporções. Quem sabe ler imagina o edifício inteiro.
A carta de Joel era uma planta baixa de uma alma.
E, no seu condensado, revelava uma amplitude que me deteve. As páginas de onde essa carta saiu me eram desconhecidas; mas a densidade de cada frase denunciava um percurso inteiro.
Eu percebia, entre as linhas, que Joel não tinha apenas demolido — tinha aprendido a escutar o que a demolição deixa.
No modo como ele falava de se sentar na areia sem exigir respostas, de estender as mãos sem cobrar, eu reconhecia um caminho — sem precisar nomeá-lo.
Eu, que passei a vida farejando o mofo das construções não arejadas, sabia reconhecer quando alguém aprendera a respirar no vazio[9].
A densidade da carta denunciava a profundidade. Se Joel escrevia assim, em tão poucas palavras, é porque havia um deserto inteiro atrás de cada uma.
Percebi que minhas palavras — as que escrevi sob o sol, demolindo altares — haviam atravessado alguém. Joel dizia: "você desmontou o altar do sacrifício e me deixou com o vazio."
O vazio.
Parei. Eu conhecia aquele vazio. Era o mesmo que deixei para trás quando terminei a demolição, sem me virar para olhar. Joguei fora todo o entulho e segui — mas jamais habitei o terreno arrasado.
Joel, sim. Joel morava ali.
Reconheci, com uma dor íntima, a lacuna da minha própria caminhada.
Nos ensaios que escrevi sobre o altar e o sangue sacrificial, eu estava inteiro na demolição — na marreta, na planta baixa, na retirada das vigas.
A pergunta "e agora, o que habita o lugar arrasado?" ficou em aberto. Não me ocupei do vazio que vem depois[10].
A carta de Joel era a cortina que se abria. Joel não apenas descobriu o vazio — ele aprendeu a morar nele. E eu percebi que esse era o passo que eu não dera.
Eu lhe dei a marreta. Joel me devolve a concha.
Era impossível ler a carta de Joel sem lembrar daquela noite na pousada — o Anfitrião que me acolheu com uma refeição e uma conversa à mesa simples.
Naquela mesa, diante da parábola do banquete, senti dentro de mim duas personas se interrogarem. O arquiteto dizendo: "Precisa de regra. Precisa de filtro." E o peregrino respondendo: "Foi assim que começou o altar de Esdras. Foi assim que o sangue virou moeda."
Mateus ainda estava fincado dentro de mim. A tentação de organizar, classificar, separar os que merecem dos que não merecem — de preencher o vazio com trono ou com mesa, com regra ou com segurança.
A carta de Joel era a resposta viva a essa tentação.
Joel não tentou preencher o vazio com nada. Ele não ergueu um novo trono no lugar do altar demolido — não conheço Barnabé; mas entendi, pelas entrelinhas da carta, que o ensaio dele havia alertado Joel sobre esse perigo — e que Joel escutara e acolhera.
Ele não reconstruiu um novo altar com tijolos de culpa. Ele simplesmente se sentou na areia, segurou uma concha vazia e imaginou estar ouvindo o som do mar.
Enquanto eu ainda lutava entre a mesa e o trono, Joel já havia descoberto que o vazio não precisa ser preenchido — precisa ser habitado.
Havia uma ironia que não pude deixar de notar.
Suspeitei que Joel não tivesse lido o ensaio da pousada — nada na sua carta trazia o cheiro da mesa ou do trono.
Ele não parecia saber da parábola do banquete, nem da tentação de Mateus, nem do porteiro que a instituição colocara de volta na porta.
Joel atravessou a tentação por outro caminho — pelo deserto da linguagem, pelo [não] orar.
E eu não li o ensaio de Joel. Intuía a profundidade apenas pela carta.
Dois peregrinos, dois desertos, dois caminhos que não se cruzavam nos papéis — e que, ainda assim, se encontravam exatamente ali, no vazio. Cada um intuía, sem ler, o que o outro atravessara.
A peregrinação, pensei, é feita desses encontros que não precisam de texto para acontecer. As cartas são pontes; mas a travessia é feita por quem intui e por quem movimenta seus passos construindo seu próprio caminho.
Olhei para minhas mãos. Mãos que desenharam catedrais, que seguraram a marreta da demolição, que agora seguravam uma carta.
Eu dei a Joel a marreta — a ferramenta para derrubar. Joel me devolvia a concha — a ferramenta para escutar o que resta no vazio.
Não era uma troca justa, no sentido comercial. Era uma troca de peregrinos: cada um dá ao outro a ferramenta[12] que lhe falta. Eu ensinei Joel a demolir; Joel me ensinava a habitar.
A concha vazia não era um vazio a ser preenchido. Era um vazio a ser escutado. E era exatamente isso que eu jamais fizera com o terreno arrasado da própria alma.
Foi então que compreendi, com uma clareza que doía, que demolir não é esquecer. Não é deixar para trás[13].
Eu acreditara, por toda a vida, que o gesto do demolidor se completava no instante em que a última viga caía. Engano. A demolição só se completa quando alguém volta e habita o vazio que ela deixou.
Eu nunca voltei. Seguia adiante, farejando a próxima estrutura a desmontar, a próxima certeza a derrubar. Mas Joel me ensinou, com a sua concha, que o vazio não é um lugar vazio[14]. É um lugar sagrado[15].
Talvez seja isso que eu nunca entendi: que o Sagrado não mora[16] apenas no que se constrói, nem no que se demole.
Ele mora no próprio Vazio[17].
Estar na Presença é, muitas vezes, simplesmente habitar o que resta — sem pressa de preencher, sem medo de[18] escutar.
Talvez o próprio Vazio seja a morada[19].
Meu caro Joel,
Escrevo-lhe de uma parada do caminho, com a poeira ainda nos pés e o coração mais leve — e mais pesado ao mesmo tempo, se isso é possível.
Sua carta chegou ao meu escaninho numa tarde em que eu precisava revigorar as forças. Meti a mão sem escolher, e foi a sua que veio. Não acredito em acaso; acredito em fragmentos que atravessam a gente na hora certa.
Preciso lhe confessar uma coisa: não li seu ensaio. Não li as páginas de onde saiu essa carta. Mas sou arquiteto, Joel, e arquitetos leem plantas baixas. Sua carta é a planta baixa de uma alma — e nela li a estrutura inteira do que você atravessou.
Você diz que eu desmontei o altar e o deixei com o vazio. E eu preciso lhe agradecer por isso, porque foi a primeira vez que alguém me devolveu, com honestidade, o que eu mesmo deixei para trás.
Passei a vida demolindo. Derrubei altares, desmascarei o sangue como moeda, retirei vigas que não sustentavam nada. Mas jamais me virei para olhar o terreno arrasado. Nunca me ocupei do vazio que vem depois. Eu varria os escombros e seguia adiante, com a mochila mais leve — sem jamais perguntar o que deveria crescer ali.
Você me ensinou, sem saber, que o vazio não é um lugar para se passar depressa. É um lugar para se morar.
Há uma tentação que ainda me persegue, Joel. Chamo-a de tentação de Mateus — o arquiteto que mora em mim e quer colocar regras onde só o amor deveria habitar. Quer preencher o vazio com trono ou com mesa, com filtro ou com segurança. Passei uma noite inteira, numa pousada, lutando entre essas duas vozes.
E então chegou a sua carta. Nela vi um homem que não tentou preencher o vazio com nada. Que não ergueu um novo trono no lugar do altar. Que se sentou na areia com a concha vazia no ouvido — escutando o mar onde não havia mar.
Você não leu sobre a minha tentação. Não leu sobre a mesa e o trono. E, ainda assim, respondeu a ela — não com palavras, mas com a sua vida.
Você me devolveu uma ferramenta que eu não tinha, Joel. Eu lhe dei a marreta; você me devolve a concha. E eu estou aprendendo, com ela, a escutar o que resta quando as palavras cansam.
Minha mochila está mais leve hoje — mas agora por um motivo diferente. Não porque joguei fora os tijolos da culpa, mas porque aprendi que há um vazio que não precisa ser carregado nem preenchido; apenas habitado.
Se nos encontrarmos na estrada, quero caminhar ao seu lado. Sem certezas, com a concha na mão, aprendendo a habitar o que a demolição deixou. Imaginando ouvir o mesmo som do mar que você ouve.
Com afeto e muita poeira,
Efraim.
* * *
Efraim dobrou a carta e a guardou na mochila, junto à concha que agora também carregava — como se Joel lhe tivesse entregado, ali, a ferramenta de escutar o que resta.
O sol começava a se pôr, tingindo o horizonte de ocre e violeta. Ele permaneceu sentado na poeira por um longo tempo, olhando para o terreno à sua frente — não como quem inspeciona uma obra, mas como quem aprende a habitar um lugar.
Pela primeira vez, Efraim não tinha pressa de seguir. Não havia altar a demolir, nem trono a combater, nem certeza a defender. Havia apenas um vazio — e ele estava aprendendo a escutá-lo.
Ele pensou em Joel, em algum lugar daquela mesma estrada, segurando uma concha vazia. Pensou em todos os peregrinos que caminhavam em silêncio, cada um com sua ferramenta, cada um com seu vazio.
A peregrinação, compreendeu, não é solitária[20]. As cartas são pontes entre os que caminham. E o vazio que um deixa, outro aprende a habitar — até que um terceiro o atravesse também.
Efraim ajustou as alças da mochila — leve, sempre mais leve — e retomou o passo. Não porque soubesse para onde ia, mas porque aprendera que o vazio não é o fim do caminho. É o lugar onde o caminho começa a ser escutado.
E você, que lê estas linhas: talvez também carregue um vazio que não se ocupou de habitar. Talvez uma carta, uma palavra, um ensaio atravesse você um dia — e lhe devolva a ferramenta que faltava.
Se isso acontecer, não tenha pressa de preenchê-lo. Sente-se na poeira. Segure a concha. Escute. Perceba no vazio a Presença[21].
* * *
Notas de Rodapé:
[1] Ensaio de Efraim: A Fragilidade Humana resgatada pelo Amor Eterno.
[2] Ensaio de Efraim: O Sangue que desmascarou o Mecanismo Político-Religioso.
[3] Ensaio de Efraim: Mesa ou Trono? — Dúvidas no Cotidiano.
[4] Tentação de Mateus: entendida por Efraim como “Todos carregamos um Mateus interior — a voz que quer organizar, classificar, separar os que merecem dos que não merecem.”
[5] Em uma de suas notas de rodapé enquanto refletia sobre o que lhe atravessava, tinha uma anotação rabiscada. “o que você busca quando lê um texto bíblico?”. Imagino que algum amigo o questionou durante alguma de suas incursões demolidoras.
[6] AGOSTINHO DE HIPONA (354–430), bispo e Doutor da Igreja. Em Confissões (Confessiones, c. 397–400; trad. bras. J. Oliveira Santos e A. Ambrósio de Pina, São Paulo: Nova Cultural, 1999), abre a obra com a inquietação que se tornou célebre: "Fizeste-nos para ti, Senhor, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em ti" (I, 1). Efraim reconhece nessa inquietação o motor da sua busca desenfreada: o farejar de construções não arejadas era, no fundo, um coração que não encontrava repouso — e que confundia a demolição com a chegada.
[7] Postas do Caminho: “No universo dos Peregrinos, as cartas não dependem de correio humano. Em cada paragem existe um escaninho. Ninguém o instalou; ninguém o esvazia.” A carta endereçada escrita por um peregrino que foi atravessado pelo ensaio de outro, após suas reflexões decide escrever para quem o despertou ou o confrontou — como um espelho.
[8] Ensaio de Joel: Aprendendo a [não] Orar.
[9] A tradição hesicasta (do grego hēsychia, “quietude”), cultivada pelos monges do deserto e do Monte Atos, ensina a oração contínua do coração — “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim” — ritmada pela própria respiração, consagrada na Filocalia (Veneza, 1782). Sua raiz está na oração pura de Evágrio Pôntico (345–399), a oração sem imagens. Joel, sem saber, redescobre essa linhagem: a atenção ao sopro que não pertence a ninguém é a oração feita no ritmo do corpo. Efraim, que farejava mofo em construções fechadas, reconhece em Joel alguém que aprendeu a respirar no vazio — o mesmo vazio que os hesicastas chamavam de quietude.
[10] ECLESIASTES (Qohelet, séc. III a.C.), livro sapiencial hebraico. A palavra hebel — "sopro, vapor, fumaça" — traduzida por "vaidade" ("Vaidade de vaidades, tudo é vaidade", Ecl 1:2), designa tudo o que é transitório e não pode ser segurado. Efraim, que passou a vida demolindo para não encarar o que fica, encontra em Qohelet o espelho da sua fuga: o vazio não é o inimigo a ser varrido, mas a matéria mesma da condição humana — e quem não o habita, apenas o adia.
[11] 1 CORÍNTIOS 13:12 — Parafraseando Paulo, agora vemos em espelho, de modo obscuro; então veremos face a face. Paulo descreve o conhecimento imperfeito próprio da condição presente. Efraim e Joel se reconhecem exatamente assim: cada um vê o outro "em espelho, de modo obscuro" — pela carta, pela intuição, sem leitura direta — e ainda assim se encontram. A obscuridade não é defeito do encontro; é a sua forma.
[12] 1 CORÍNTIOS 12 — Paulo descreve a comunidade como um corpo em que cada membro recebe um dom diferente e nenhum se basta: "o olho não pode dizer à mão: não preciso de ti" (1 Co 12:21). Efraim e Joel vivem essa complementaridade na estrada: um recebeu a marreta, o outro a concha; e a peregrinação só avança quando as ferramentas circulam de mão em mão.
[13] JOÃO DA CRUZ (1542–1591), carmelita e Doutor da Igreja. Em Subida do Monte Carmelo (Subida del Monte Carmelo, 1579–1585; trad. bras. Petrópolis: Vozes), descreve a "noite escura" como o caminho em que a alma é esvaziada de tudo para ser cheia de Deus — "para chegar a gozar de tudo, não queiras ter gosto em nada". A noite escura é o vazio que se atravessa não para fugir, mas para encontrar: Efraim, que sempre fugiu do terreno arrasado, aprende com a concha de Joel que a noite é o próprio lugar do encontro.
[14] GÊNESIS 1:2 — "A terra era sem forma e vazia [...] e o Espírito de Deus pairava sobre a face das águas." O primeiro cenário da Escritura é um vazio — tohu wabohu, "sem forma e vazio" — e é sobre ele que o Espírito se move. Efraim descobre que o vazio não é o lugar da ausência de Deus, mas o primeiro lugar da sua Presença: antes de qualquer construção, antes de qualquer altar, o Espírito já pairava sobre o que estava vazio. A palavra hebraica traduzida por “pairava” (merahefet) é a mesma da águia que choca seus filhotes (Dt 32:11): o Espírito não flutua sobre o vazio — ele o incuba, como quem gesta vida onde ainda nada existe.
[15] MESTRE ECKHART (c. 1260–c. 1328), dominicano e místico renano. Em seus Sermões Alemães (trad. bras. Enio Paulo Giachini, Petrópolis: Vozes, 2006), ensina o desprendimento (Abgeschiedenheit) e afirma que Deus habita o "nada" da alma que se esvaziou de tudo: "O olho com que vejo Deus é o mesmo olho com que Deus me vê." Para Efraim, essa é a morada que ele nunca visitou: o vazio não é ausência a ser preenchida, mas o lugar onde Deus, que também se esvaziou (kenosis), pode finalmente habitar.
[16] SCHOLEM, Gershom (1897–1982), historiador e filósofo israelense. Em As Grandes Correntes da Mística Judaica (Major Trends in Jewish Mysticism, 1941; trad. bras. São Paulo: Perspectiva), expõe a doutrina do tzimtzum de Isaac Luria (1534–1572): para criar o mundo, Deus teria se contraído, abrindo um espaço vazio (halal) no seio de sua infinitude — o lugar onde a criação e a liberdade se tornam possíveis. Efraim reconhece aí a arquitetura do sagrado que buscava: o vazio não é o que sobra da demolição, mas o que Deus abre para que algo possa existir. O próprio Vazio é a morada.
[17] A Nuvem do Não Saber (The Cloud of Unknowing, anônimo inglês, séc. XIV; trad. bras. Maria de Moraes Barros, São Paulo: Paulus, 1981), clássico da mística medieval, ensina que Deus não é alcançado pelo saber, mas por uma "nuvem do não saber" — o abandono das imagens e das palavras para tocar o que excede toda compreensão. Joel, que aprendeu a [não] orar, habita essa nuvem; e Efraim, que sempre quis ler as plantas baixas de tudo, descobre que há um conhecimento que só se alcança desistindo de conhecer.
[18] WEIL, Simone (1909–1943), filósofa francesa. Em A Gravidade e a Graça (La Pesanteur et la Grâce, 1947; trad. bras. Paulo Neves, São Paulo: Martins Fontes), desenvolve a "descriação": esvaziar-se do próprio eu para deixar espaço para Deus — "A atenção, levada ao seu grau mais alto, é a mesma coisa que a oração." A concha de Joel é a descriação em gesto: não acrescentar nada, apenas escutar. Efraim, o construtor, aprende com ela que a mais alta arquitetura da alma é a que se constrói por subtração.
[19] Nota do Curador — sobre o vazio e a descriação. Este ensaio fala do vazio como morada e da descriação como caminho espiritual. Mas é preciso dizê-lo sem rodeios: esvaziar-se para Deus não é o mesmo que esvaziar-se de si por doença. A descriação de que falamos aqui é um movimento livre, feito de atenção e de amor, que conduz à Presença. Depressão, ansiedade e outros sofrimentos psíquicos não são descriação: são doença — e doença se trata, com cuidado profissional, terapia e, quando necessário, medicação. Se o vazio que você carrega não trouxer paz, mas uma escuridão persistente, procure ajuda. Não há vergonha nisso; há sabedoria. Buscar apoio também é um caminho de peregrino.
[20] HEBREUS 12:1 — "Nós também, pois, rodeados de uma tão grande nuvem de testemunhas." O autor da carta descreve os que já caminharam como uma nuvem que cerca os que ainda caminham. Efraim, ao compreender que a peregrinação não é solitária, redescobre essa nuvem: Barnabé, Joel, Ana, Cleófas — e todos os que recebem e enviam cartas — são a nuvem de testemunhas que cerca o seu passo. As cartas são os fios que ligam a nuvem.
[21] ISAÍAS 45:15 — "Verdadeiramente tu és um Deus que te ocultas, ó Deus de Israel, Salvador." A tradição profética e mística conhece o Deus que se esconde — o Deus absconditus — e sabe que a sua ocultação não é ausência, mas a forma mais profunda de presença. Efraim, ao final, não procura mais preencher o vazio: aprende a perceber, nele, a Presença que sempre esteve ali — oculta como o Espírito sobre as águas, como o mar dentro da concha.
* * *
A travessia de Efraim nesta parada do caminho termina como começou: uma mão que mete no escaninho e uma carta que não foi escolhida. Mas entre a mão distraída e a leitura atenta houve um abismo — o mesmo abismo que o arquiteto passou a vida varrendo. Joel não devolveu a Efraim as suas palavras; devolveu-lhe o eco delas, transformado em morada. E Efraim, pela primeira vez, não teve pressa de seguir.
Que o leitor não se engane: este ensaio não fala da beleza do vazio, nem da poesia da concha vazia. Fala do gesto que falta a quase todos nós — voltar ao terreno que demolimos, sentar na poeira e escutar o que a pressa enterrou. Se uma carta, uma palavra ou um ensaio atravessar você, não pergunte primeiro o que ele significa; pergunte, antes, o que ele desenterra. Porque há vazios que só falam quando finalmente nos calamos diante deles.
Arnoldo Mendonça - 02 de outubro de 2026
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