A Oficina que Abriga o Eterno

Ensaio sobre as reflexões de um peregrino, Simão — que não caminha mais pelas estradas empoeiradas, mas aprendeu a esculpir sua fé no tempo que lhe restava.

Há peregrinos que partem em busca do horizonte. Simão partiu em busca do que estava mais perto: o banco da própria oficina.

Esta é a travessia de um homem que descobriu que a caminhada não precisa de pernas — precisa de presença.

1. Nota do Curador

Efraim desmontou o altar do sacrifício. Barnabé advertiu contra o altar da desconstrução. Joel aprendeu a [não] orar diante do altar vazio. Cleófas aprendeu a navegar no vazio — ou, mais precisamente, a não navegar. Agora, um novo peregrino se apresenta. Seu nome é Simão.

Simão significa "aquele que ouve"[1] .

Simão sempre soube ouvir. Apesar da formação de engenheiro — que planeja, cumpre prazos e mede eficiência e eficácia — quem sabe ouvir sai na frente e prospera mais em seus projetos. Abandonei a ideia de que este Simão teria precisado da doença para aprender a ouvir; seria uma injustiça atribuir-lhe essa dívida. O paralelo mais justo é outro: ele sempre soube ouvir — a equipe, os amigos, a família — mas ouvir a si mesmo, escutar a própria fragilidade, talvez tenha sido a travessia que a doença lhe impôs.

Isso parece ter forjado sua caminhada. Quando soube do infortúnio da sua doença — como uma madeira que range antes de partir — o tempo lhe exigiu que deixasse a plaina descansar, para que, além de ouvir, houvesse tempo para deixar suas marcas, incluindo o sorriso.

Ele não escrevia teologia. Ele a esculpia. Em cedro, em carvalho, em pinus. E, quando o corpo já não permitia mais caminhar, ele descobriu que a caminhada não precisava de pernas. Precisava de presença.

Este ensaio não é uma conclusão. É um desbaste — a tentativa de um marceneiro de encontrar a forma final dentro do bloco bruto da finitude.

2. Metáfora de Ofício e Caminhada

Simão enxergava o mundo como quem enxerga uma peça de madeira: algo que se planeja, se mede, se ajusta, se conserta.

A fé, para ele, era uma marcenaria — com as ferramentas certas, com o esquadro na medida exata, com a plaina bem afiada, seria possível construir uma vida sólida, inquebrável, à prova do tempo e do desgaste.

A doença desmontou essa ilusão. Não porque ele tenha perdido o controle — mas porque ele nunca teve. E foi nessa descoberta, dura e silenciosa como o grão que se revela sob a lixa, que Simão encontrou o verdadeiro ofício: não o de construir, mas o de desbastar.Remover o excesso até que a forma escondida apareça.

É habitar a fragilidade em vez de consertá-la.

*  *  *

3. O Encontro

Não vou mentir. Quando li os textos de Efraim[2] e Barnabé[3] , anos atrás, ainda na saúde plena, algo se moveu em mim — mas foi um movimento teórico, desses que a gente guarda na prateleira intelectual como um livro bonito que se admira, mas não se lê de fato.

Foi ao ler Joel[4] e Cleófas[5] , já no curso da enfermidade, já com o diagnóstico pesando no peito como uma tora de carvalho, que algo se rompeu de vez. Não um rompimento explosivo. Silencioso. Como quando você está lixando uma peça e percebe que o grão da madeira não é um defeito — é a própria direção do trabalho.

Cleófas escreveu: "O naufrágio não foi no oceano, foi na alma." Na minha caminhada aprendi: a queda não foi na oficina. Foi na ilusão de que eu tinha tempo.

A queda aconteceu num dia comum, desses que a gente não marca no calendário porque não parecem importantes. Um tropeço entre a plaina e a serra tico-tico. Nada grave — pensei na hora, levantando com um esforço que já deveria ter me alertado.

Mas o tombo revelou o que já estava ali, silencioso, crescendo há meses como um fungo na parte de trás de um armário encostado na parede.

O diagnóstico veio semanas depois. Câncer. Mau prognóstico. Palavras que eu dizia a respeito dos outros — dos amigos, dos parentes, dos pedidos de oração da igreja — nunca a meu respeito.

O projeto imediato, aquele que eu havia planejado com o cuidado de um mestre marceneiro, foi suspenso. O tal Caminho da Fé — a pé, quilômetro por quilômetro, o cajado de freixo já lixado, a mochila já testada, o mapa já anotado nas margens — tudo ancorado.

Cleófas sabia disso. Ele chamou de "o barco que nunca fica pronto"; eu, de "o cajado que nunca será fincado no chão da estrada". E Joel, que também sabia de coisas assim, perguntou: "O que significa orar quando o altar está vazio?"

Eu, Simão, acrescento uma pergunta que não me larga: o que significa olhar para os cronogramas da construção quando a oficina está prestes a fechar?

4. O Ensaio

4.1 A Biblioteca do Caminho

Foi nos meses seguintes — entre uma quimioterapia e outra, entre o cansaço que embaçava a visão e as noites em que o corpo se recusava a dormir — que reencontrei[6] os textos de Joel e Cleófas.

Comecei a ler sem vontade, com a mão trêmula segurando as folhas, a fadiga transformando as palavras em manchas. Terminei com os olhos molhados — não por comoção barata, mas por reconhecimento. Eles estavam falando de coisas que eu vivia, mas não sabia nomear.

Com Joel, aprendi a oração como atenção. Joel escreveu sobre os cinco modos de [não] orar, mas foi um deles que me achou: a oração como atenção. "Atenção é o oposto de controle", ele disse. "Controlar é agarrar. Atenção é abrir a mão."

Eu passei a vida controlando. Projetando. Calculando encaixes. Medindo ângulos. Acreditava que a fé era uma marcenaria — que, com as ferramentas certas, eu poderia construir uma vida sólida, inquebrável, à prova do tempo e do desgaste.

A doença me desmontou essa ilusão. Aprendi, então, uma coisa que Joel já sabia: orar não é pedir. Orar é estar presente[7] .

Sentar-me no banco da oficina — não para produzir, não para terminar aquele móvel que ficou pela metade, mas para observar[8] .

Observar o rosto da minha esposa quando ela entrava com o café da tarde. Observar o jeito que os meninos — já homens, já na universidade, já em seus relacionamentos amorosos — ainda brincam entre si como quando eram pequenos.

Aprendi que a oração mais verdadeira que fiz nesses últimos meses tem sido silenciosa. Estou aprendendo a prestar atenção no que ainda está à minha volta — não no que eu tinha perdido, não no que eu não conseguiria construir.

4.2 A Vontade Divina Não é o Câncer

Com Cleófas, aprendi o [não] navegar. Cleófas foi mais duro comigo. Ele escreveu sobre o barco que nunca estaria pronto, sobre o horizonte que não exige chegada, apenas “aponta para leste, onde o sol nasce dia após dia teimosamente desde que o mundo é mundo”.

Li e ri — um riso seco, sem humor, desses que a gente solta quando a verdade dói. Porque eu também tinha um barco. Só que o meu barco era uma caminhada. E o meu cajado de freixo estava encostado na parede, ao lado da plaina, esperando.

Cleófas disse: "Não navegar como aceitação — o barco descansa sob o teto do estaleiro." Eu, Simão, aprendi a não caminhar. Não como desistência. Como reconhecimento.

O mapa está dobrado na gaveta. As botas estão no armário, juntando poeira. O cajado — tão lixado, tão pronto, tão cheio de promessas — agora é um enfeite. Ou melhor: é uma lembrança de que o projeto mudou.

A vontade divina[9] não é o câncer. Deus não é o autor da ferrugem. A vontade divina é a paz que sinto ao perceber que, embora eu não caminhe até o santuário, o Santuário veio até mim. Sentou-se no banco da oficina. Pediu café. Ficou em silêncio.

Barnabé teria dito: "O poder não aceita a fragilidade." Eu, Simão, digo o contrário[10] : a fragilidade não precisa ser aceita. Ela precisa ser habitada.

E não posso me esquecer dos que vieram antes. Efraim me ensinou, ainda nos anos de saúde, que o sacrifício não vem de Deus — vem de nós. E que a cruz não é um pagamento[11] , mas um desmascaramento. Foi com ele que desmontei, enfim, o altar do "eu preciso merecer isso".

Não mereço o câncer. Não mereço a morte. Não mereço nada disso — assim como a madeira não merece o cupim. Merecimento[12] não faz parte do Reino que veio com o carpinteiro de Nazaré.

Mas também não preciso de um motivo. Barnabé me ensinou a desconfiar[13] de mim mesmo. "O peregrino que vira inquisidor não se lembra mais de quando duvidava."

Quantas vezes, na saúde plena, apontei o dedo para quem sofria? Quantas vezes pensei, com a arrogância silenciosa de quem nunca esteve do outro lado: "Se tivessem mais fé, Deus teria respondido"?

A doença me devolveu a dúvida. E a dúvida, como Joel ensinou, não é inimiga da oração. A dúvida é o jeito mais honesto de uma oração sincera.

4.3 Entre Dúvidas e Certezas

Não posso fingir que aprendi tudo. Isso seria trapacear — e os peregrinos que vieram antes de mim, Efraim, Barnabé, Joel, Cleófas, todos eles foram honestos sobre o que ainda não sabiam. Eu também preciso ser honesto.

Tenho dúvidas. Dúvidas se o Eterno realmente esteve ao meu lado no banco da oficina. Dúvidas se o sorriso que eu carregava era graça — ou apenas química cerebral tentando me proteger da dor, um mecanismo de defesa do corpo que se recusa a morrer antes da hora. Dúvidas se tudo isso fez algum sentido.

Mas aprendi uma coisa que Joel também aprendeu: a dúvida não anula a fé[14] . A fé não é a certeza[15] — a certeza é outra coisa, talvez irmã gêmea da arrogância.

A fé é a decisão de continuar sentado no banco[16] , a plaina apoiada na mesa, ao lado do projeto inacabado, o cajado que, pronto para a caminhada, jaz encostado na parede — mesmo quando não se tem certeza de que alguém vai chegar para partilhar o café.

4.4 O Sorriso

Preciso contar uma coisa. Talvez a mais importante. E não quero que soe triunfalista, porque não é. Não é vitória. Não é superação. Não é "ele venceu o câncer com um sorriso no rosto" — essas histórias sempre me incomodaram, porque transformam a dor em espetáculo e a morte em fracasso. Não é isso.

Durante todo esse processo — os exames invasivos, a quimioterapia que deixava o gosto de metal na boca, o definhamento que tirava a força das pernas, as noites em que o corpo se recusava a entregar o sono que eu tanto precisava, o medo que vinha sem avisar como um vento frio no meio da madrugada.

Mesmo diante dessa exaustiva caminhada de tratamentos, havia um sorriso estampado no meu rosto.

Não era um sorriso de quem não sentia dor[17] . A dor era real, e eu aprendi com Joel que o lamento é legítimo — então não vou fingir que sorria apesar da dor. Eu sorria com a dor. A dor estava ali, e o sorriso estava ali. Os dois coexistiam — como a madeira e o grão, como a madeira e os nós que a atravessam.

Minha esposa perguntou, certa noite, na varanda, enquanto tomávamos café e os meninos já dormiam: "Simão, como você consegue sorrir?"

Pensei. Fiquei em silêncio. O silêncio, aprendi com Joel, também é oração. Depois, lembrei de Barnabé: "A vulnerabilidade compartilhada[18] é diferente da vulnerabilidade solitária."

Nos meus pensamentos já afetados pelos tratamentos, entendi que aquele sorriso não era meu. Não era uma conquista. Não era uma técnica espiritual que eu havia dominado.

Era um sorriso[19] que a Presença colocava no meu rosto — o Eterno sentado ao meu lado no banco da oficina, ou na varanda, ou na poltrona do hospital, segurando minha mão trêmula. Não para curar. Para acompanhar. Não para explicar. Para estar presente.

O sorriso era a resposta silenciosa à pergunta que eu não precisava mais fazer. Voltei o olhar para minha esposa e apenas sorri mais uma vez.

4.5 Último Sorriso aos Amigos de Caminhada

Há dois meses, reuni os amigos. Pedi que viessem — não para um velório antecipado, não para um clamor desesperado por milagres, mas para um encontro. Uma oficina aberta, como eu gostava de chamar.

Todos esperavam encontrar um homem derrotado, talvez amargurado, talvez orando as últimas orações.

Encontraram, em vez disso, um homem frágil, sim — o corpo já magro, a pele marcada, a voz mais baixa do que costumava ser. Mas em paz. O sorriso ainda estava lá. Um sorriso mais magro, mais cansado, mais hesitante — mas permanecia lá.

Alguém perguntou, no final do encontro, quando alguns já tinham ido para suas casas: "Simão, você tem medo?" Respondi: "Medo, sim. Medo da dor, medo de deixar minha esposa sozinha, medo de os meninos não se lembrarem de mim do jeito que eu gostaria. Medo, sim. Desespero, não."

Aprendi que o medo[20] é humano — é o que nos mantém vivos, atentos, presentes. O desespero é escolha. E eu escolhi, nos dias em que ainda podia escolher, não me entregar a ele.

Meu último sonho: que minha esposa, meus filhos e meus amigos se lembrem de mim com um sorriso sincero estampado no rosto, contemplando cada um deles. Lutei contra o Naufrágio desse Meu Último Sonho.

*  *  *

5. A Carta a Joel e Cleófas (e, por eles, a Efraim e Barnabé)

Caro Joel, caro Cleófas,

Li seus ensaios no banco da minha oficina, entre uma plaina e uma lixa. Não como quem estuda — eu nunca fui bom em estudar coisas que não posso tocar com as mãos. Li como quem reconhece. Como quem, ao ler, diz: "É disso que se trata. É disso que eu estou vivendo."

Joel, você me ensinou que a oração não é pedido. É atenção. E que o lamento é legítimo — não porque muda Deus, mas porque faz justiça à dor.

Quantas noites eu passei em silêncio, sem saber orar, apenas sentado na cama do hospital, olhando para a parede branca?

Você me deu nome para aquilo. Você me disse que aquilo também é oração. Aprendi, com você, a [não] orar.

E descobri que, no silêncio do altar vazio — ou no silêncio da oficina vazia — ainda há espaço para estar presente. Para não fugir. Para não preencher o vazio com palavras bonitas que não sinto.

Cleófas, você me ensinou que o horizonte não exige chegada. Exige apontar. Seu barco — ancorado no estaleiro, apontado para o leste — é o meu cajado encostado na parede. Sua oficina no vazio é a minha marcenaria da finitude.

Você escreveu sobre a proa apontada para leste, e eu entendi que meu cajado, mesmo sem nunca ter tocado o chão do Caminho da Fé, já cumpriu sua missão. Ele foi lixado com amor. Ele esperou. Ele testemunhou uma Presença nem sempre percebida.

Aprendi, com você, que habitar o vazio não é preenchê-lo com sentido — é sentar-se nele e não fugir. É deixar que o vazio seja vazio, sem colocar almofadas ou enfeites no vazio.

Efraim — embora você não leia esta carta, porque seus passos já são antigos no deserto — me ensinou que Deus nunca quis sacrifício.

Desmontei, enfim, o altar do merecimento. Não preciso merecer o amor. Não preciso merecer a cura. Não preciso merecer o perdão. Não preciso merecer a morte.

A madeira não merece o cupim. O cupim apenas vem. A graça, talvez, seja isso: saber que algo também vem sem que a gente mereça — e que, ao contrário do cupim, não corrói: vem para habitar.

Barnabé, você me ensinou a desconfiar de mim mesmo. A parábola do rato que vira gato ficou comigo como um prego mal tirado da madeira.

Quantas vezes, na saúde plena, fui gato? Quantas vezes apontei o dedo para quem sofria, pensando que minha fé era maior, que meu projeto era melhor, que meu caminho era o certo?

A doença me devolveu ao tamanho real — pequeno, frágil, sem garantias. E foi nesse tamanho que encontrei a Companhia que eu não percebia: quando me sentia grande, não percebia o quanto eu precisava dela.

Hoje, sentado no banco da oficina — apenas para observar e guardar as últimas memórias desse lugar — eu escrevo para vocês. Não para responder. Para agradecer.

Vocês me deram palavras para o que eu só sabia silenciar. E, no silêncio compartilhado dessa carta que nenhum de vocês lerá, eu encontro algo que não sei nomear.

Talvez seja o que Joel chamou de oração. Talvez seja o que Cleófas chamou de navegar no vazio. Talvez seja apenas o cheiro da madeira. Isso já é suficiente.

Com a mesma madeira que me resta — meus meninos, minha esposa, minha oficina, meu cajado encostado na parede.

Simão

*  *  *

6. Gesto Final

Simão partiu ontem. Não sei dizer a hora exata. As enfermeiras anotaram no prontuário, mas isso não importa para a história que fica.

O corpo — que definhava mais depressa do que qualquer caminhante jamais percorreu uma estrada de chão — descansou.

A oficina está em silêncio — um silêncio diferente do silêncio de quando ele estava vivo. A plaina está no lugar de sempre, ao lado da bancada. A serra tico-tico está desligada. O cajado de freixo continua encostado na parede, ao lado daquela moldura que ele nunca terminou de lixar.

O que resta? Resta o cheiro de serragem. Resta o exemplo de um homem que aprendeu a [não] orar, a [não] caminhar, a [não] consertar tudo o que via pela frente.

E, mesmo assim — mesmo sem saber se alguém estava escutando, mesmo sem ter certeza de que o horizonte era outra coisa além de uma linha que separa o céu da terra — ele apontou[21] seus passos em companhia da Presença do Eterno.

Cleófas disse: "O horizonte não exige que a gente chegue. Exige que a gente aponte." Simão apontou. Não com o dedo. Com o cajado que deixou para o filho. Com a plaina que passou para o outro. Com o sorriso que ficou gravado na memória de todos que o viram.

O vazio[22] que ele deixou não é ausência. É o vazio do “entre”[23] . É o espaço onde os meninos agora caminham — cada um à sua maneira, cada um com suas dúvidas, cada um com seus descaminhos. Guiados não por instruções, mas pelo cheiro de serragem. Pela memória de um homem que, diante da finitude, não desviou o olhar. Apenas sentou no banco, pegou a plaina da aceitação, e continuou ao lado dAquele que lhe fez companhia o tempo todo.

*  *  *

Notas de Rodapé:

[1] Simão vem do hebraico Shim'on, derivado da raiz shama, que significa "ouvir". O nome, portanto, pode ser lido como "aquele que ouve" ou, na forma mais completa, "Deus ouviu" — porque carrega a ideia de que algo foi escutado e atendido. A origem está em Gênesis 29:33, quando Lia, a esposa desprezada de Jacó, dá à luz o segundo filho e diz: "Porque o Senhor ouviu que eu era desprezada, deu-me também este". Ela o chama de Simeão — o nome nasce de um grito que foi ouvido.

[2] Ensaios de Efraim: "A Fragilidade Humana resgatada pelo Amor Eterno" — sobre a desconstrução da necessidade do pagamento sacrificial para aplacar a ira de um Deus irado — e "O Sangue que desmascarou o Mecanismo Político-Religioso" — sobre como o Sangue de Jesus Cristo, assassinado por ser Frágil, desmascara os acordos entre o Palácio e a Igreja.

[3] Ensaio de Barnabé: “O Poder não Aceita a Fragilidade” - reflexões sobre a impossibilidade do Poder aceitar a Fragilidade Humana.

[4] Ensaio de Joel: “Aprendendo a [não] Orar” - reflexões sobre a desconstrução das maneiras certas de orar, ao perceber que sua realidade o leva a outras formas de expressar-se diante da Presença do Eterno.

[5] Ensaios de Cleófas: "O Naufrágio de um Sonho" — reflexões diante da morte instalada em sua caminhada, que destruiu seu sonho — e "A Oficina é Minha Capela" — reflexões sobre os dias seguintes ao perceber o vazio entre ele e a perda, e a presença que habita o vazio.

[6] Nota do curador: mais do que encontro, um reencontro — Simão já lera esses textos no item 3, já no curso da enfermidade. O que muda agora não é o primeiro impacto, mas a profundidade: ele volta aos mesmos textos com a vida transformada, e é essa segunda leitura que o atravessa de fato.

[7] Simone Weil, Espera de Deus (ed. bras. Vozes), ensaio "Reflexões sobre o bom uso dos estudos escolares como meio de cultivar o amor de Deus", porque ali Weil formula que "a atenção, levada ao seu grau mais alto, é a mesma coisa que a oração" — exatamente a frase de Joel ("atenção é o oposto de controle") e o gesto de Simão de apenas observar.

[8] Irmão Lourenço da Ressurreição, A Prática da Presença de Deus (séc. XVII), porque mostra a presença de Deus vivida no trabalho humilde — na cozinha do convento, como aqui no banco da oficina.

[9] Jürgen Moltmann, O Deus Crucificado (ed. bras. Academia Cristã / Paulus), porque sustenta teologicamente a recusa de atribuir o mal a Deus: na cruz, Deus não é o autor do sofrimento, mas quem o acompanha — o "não para curar, para acompanhar" do ensaio.

[10] Contraponto pertinente: Barnabé falava do Poder instituído — o Palácio e a Igreja, que não aceitam a fragilidade porque ela ameaça a autoridade. Simão enfrenta outro poder: o de controlar os acontecimentos futuros do caminho, de garantir bons resultados e vida longa — o poder de exigir do divino. São dois poderes distintos, mas a mesma raiz: a recusa de habitar a fragilidade.

[11] René Girard, O Bode Expiatório (ed. bras. Paulus / Edições 70), porque a teologia de Efraim (o sacrifício vem de nós; a cruz desmascara o mecanismo) é, em termos acadêmicos, girardiana: a vítima inocente revela a violência sacrificial das instituições. Textos bíblicos em: Oséias 6:6 e Mateus 9:13 — "misericórdia quero, e não sacrifício"; Salmo 51:16-17, porque dão o lastro bíblico direto da recusa do sacrifício.

[12] Paul Tillich, sermão "Você é aceito" ("You Are Accepted", em The Shaking of the Foundations, 1948), porque define a graça como aceitação que não depende de mérito — a resposta exata ao desmonte do "altar do eu preciso merecer isso".

[13] Fiódor Dostoiévski, Os Irmãos Karamazov — o poema "O Grande Inquisidor", porque o inquisidor é o religioso que aboliu a dúvida e a liberdade; Barnabé e Simão apontam para o mesmo abismo — quem deixa de duvidar vira acusador.

[14] Jacques Ellul, "Fé e crença" (artigo traduzido no Brasil — IHU/Unisinos) e o livro La foi au prix du doute (1980; ed. inglesa Living Faith: Belief and Doubt in a Dangerous World), porque Ellul formula exatamente o que Simão intui — "a fé pressupõe a dúvida, a crença exclui a dúvida"; a fé é relação arriscada, não garantia. Søren Kierkegaard, Temor e Tremor, porque dá o movimento da fé sem certezas.

[15] Há um conceito "quase teológico" — e bíblico: "a fé é a certeza das coisas que não se veem" (Hebreus 11:1) — que muitas teologias, construídas sobre um único texto, transformaram em fórmula a serviço do pensamento do teólogo. Vale confrontá-lo com Jacques Ellul, em "Fé e Crença", que distingue a crença (adesão a certezas, garantias e instituições) da fé (relação viva, arriscada, que caminha sem garantias). É exatamente essa distinção que Simão intui: sua fé não é certeza, é decisão de permanecer.

[16] Søren Kierkegaard, Temor e Tremor, porque o "cavaleiro da fé" permanece no mundo comum sem garantias visíveis — o retrato exato de Simão sentado, com a plaina parada e o café que pode não chegar.

[17] Salmos de LamentoSalmos 13, 22, 42-43, 88, porque legitimam a dor como oração diante de Deus. Walter Brueggemann, The Message of the Psalms (ed. espanhola, El mensaje de los salmos), porque classifica os salmos de "desorientação" e mostra que o lamento "faz justiça à dor" sem ofender Deus — a tese de Joel. Etty Hillesum, Uma Vida Interrompida (ed. bras.), porque é a testemunha histórica de quem habitou o sofrimento sem desespero.

[18] Henri Nouwen, O Curador Ferido (ed. bras. Vozes / Paulinas), porque a tese de Nouwen — quem cura a partir da própria ferida — é a tradução pastoral exata de "habitar a fragilidade".

[19] Texto bíblico em 2 Coríntios 12:9 — "A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza", porque é a âncora bíblica do sorriso que não é conquista nem técnica, mas dom recebido na fragilidade.

[20] Paul Tillich, A Coragem de Ser (ed. bras.), porque distingue a ansiedade existencial (inevitável, parte de ser finito) da rendição a ela — o desespero; a coragem é o "apesar de" que Simão vive nos dias em que ainda podia escolher.

[21] Juliana de Norwich, Revelações do Amor Divino (ed. bras., Vozes, "Série Clássicos da Espiritualidade"), porque a mística inglesa, que escreveu a partir de uma doença grave, é a testemunha perfeita de uma paz que não ignora a dor — eco direto do sorriso de Simão ("tudo ficará bem, e tudo ficará bem, e toda espécie de coisa ficará bem").

[22] Martin Buber, Eu e Tu (ed. bras., Perspectiva), porque define o encontro como algo que acontece no "entre" (das Zwischen), no espaço relacional — a intuição de Cleófas. Simone Weil, A Gravidade e a Graça, porque trata o vazio (le vide) como condição da espera e da atenção.

[23] Como Cleófas ensinou: não há vazio "em si"; há vazio "entre" — entre mim e o que perdi, entre o que fui e o que resta. É nesse entre, nesse espaço relacional, que a Presença encontra lugar.

*  *  *

Meu amigo e companheiro de jornada se foi para sempre. Aprendi com ele que o sorriso estampado no rosto é a certeza de não estar sozinho.

A morte está presente assim como o caminho que nos proporciona a vida, aproveitá-la ao máximo é dar o próximo passo com um sorriso — mesmo na dor.

Minha homenagem ao amigo Regis Rodrigues Braz

Arnoldo Mendonça - 08 de junho de 2026




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